10 de outubro de 2025

Sindrome de Cotard e obsessão

Pintura por Frederick S. Coburn (1871-1960).

Chamou-me a atenção uma reportagem [1] sobre a chamada "Síndrome de Cotard" (délire de Cotard) que tem sintomas bem estranhos: o paciente se sente morto e tem delírios com partes de seu corpo em decomposição ou ausentes. É um tipo de doença mental com sintomas bem peculiares e ligados à morte.

O psiquiatra francês Jules Cotard (1840–1889) foi o pioneiro na descrição dessa condição [2] a partir de um diagnóstico que, na época, estava associado à chamada "melancolia" (mais tarde rebatizado como "depressão"). Na época, ele descreveu um caso, o da "Senhorita X", que negava a existência de partes de seu corpo - um sintoma posteriormente denominado somatoparafrenia. Além disso, não via razão para se alimentar porque estava morta. Essa paciente acabou falecendo de inanição ao se submeter a uma dieta de restrição severa de alimentação.

A reportagem [1] retransmite uma opinião sobre a origem dessa doença que, essencialmente, teria causa meramente orgânica:

Lesões causadas por acidente vascular cerebral (AVC), traumatismo craniano, infecções como meningoencefalites e doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, estão comumente relacionadas ao desencadeamento da síndrome, explica o neurologista Sergio Jordy, membro da American Academy of Neurology (AAN) e da European Academy of Neurology (EAN).

O que me chamou a atenção foi a rapidez com que condições físicas foram associadas à doença nessa reportagem. Isso leva o leitor a concluir que as causas já foram identificadas. 

Por outro lado, quem já participou de sessões de desobsessão sabe que muitos médiuns descrevem sintomas semelhantes, frutos da presença de Espíritos que se identificam como tendo falecido, sem noção de tempo, de consciência, como não mais tendo certas partes do corpo etc. 

Assim, empreendi uma busca mais detalhada na literatura sobre essa síndrome e encontrei informações que apontam para a complexidade desse estado psíquico e sua possível origem obsessiva.

Uma pequena busca na literatura especializada

Por "achados neurológicos" se entende um conjunto de evidências, encontradas em exames (p. ex., em EEG - eletroencefalogramas, IRM - Imageamento por ressonância magnética, TC - Tomografia computadorizada), que apontam para alterações perceptíveis na estrutura neurológica de um indivíduo. Esses achados podem ou não estar "associados" a uma doença, talvez a constituir uma causa provável para uma patologia mental.

No trabalho de Cipriani et al 2019 [3], os autores revisam alguns trabalhos anteriores sobre a síndrome e fazem uma associação com a demência. Pontos importantes: ela está associada a várias desordens (ver "Associated disorders"): estados psicóticos, depressão, esquizofrenia, desordens de personalidade, AVC (acidente vascular cerebral), demência etc. A incidência da síndrome entre pacientes psiquiátricos não é maior que 1% (ver Seção "Epidemiology"). Com relação à neurobiologia da síndrome (ver "Neurobiology of Cotard syndrome") os autores iniciam a seção declarando:

A neurobiologia da Síndrome de Cotard é controversa. Os achados não são consistentes e não têm utilidade diagnóstica ou prognóstica clara.

Essa seção também descreve as principais lesões observadas em alguns pacientes que apresentaram os sintomas. 

Swamy et al (2007) [4] negam que se possa interpretar a suposta síndrome (não há consenso na literatura de que se trate de uma síndrome de fato) como oriunda univocamente de causas orgânicas. Para esses autores, existem diversas limitações nas abordagens que foram feitas: viés de linguagem, de publicação e de tamanho de amostra de casos que seria muito pequeno. Na minha opinião, a mais grave limitação é, certamente, o viés de publicação: a maioria dos casos reportados são de pacientes que tiveram exames demonstrando alterações neurológicas "físicas". Porém, segundo [4]:

É importante notar que nem todos os casos de síndrome de Cotard observados por psiquiatras em sua prática diária têm probabilidade de serem descritos e publicados. É mais provável que casos de síndrome de Cotard com achados neurológicos positivos sejam publicados. Portanto, as inferências e generalizações que podem ser extraídas de uma amostra amplamente distorcida (apenas os casos com achados neurológicos anormais) em relação aos correlatos neurológicos subjacentes da síndrome de Cotard em geral são limitadas. (grifo meu)

Esse é um problema sério, pois ele pode se aplicar não só à Síndrome de Cotard, mas a outras doenças psiquiátricas. Ao se publicar apenas casos que têm correlatos neurológicos demonstrados por exames, cria-se a impressão de que esses casos são naturalmente causados por tais alterações. Porém, a Tabela II de [4] demonstra uma grande quantidade de casos de Síndrome de Cotard em que não há nenhuma evidência de dano neuronal (exames de eletroencefalograma e CT normais, etc). 

O trabalho [5] apresenta um estudo feito com 100 pacientes, que é considerado limitado por [6] por causa do viés de publicação. S. Dieges (2018) [6] indica a presença da síndrome em relatos de médicos antigos no Século 19 (antes de Cotard), como na obra de Etienne Esquirol (1772-1840) "Des maladies mentales: considérées sous les rapports médical, hygiénique et médico-legal" [7]. Ver, em especial, o capítulo sobre "Demonomania" (uma alteração mental que era atribuída aos "demônios" pelos próprios pacientes). 

Esses casos vazios de alterações neurológicas são um desafio enorme para a psiquiatria e toda neurociência. Pois, como é possível haver pacientes sem nenhum tipo de alteração física e, ainda assim, com a presença de sintomas? Há duas possibilidades de explicação apenas: i) a ciência presente não consegue ainda identificar uma causa física por falha nos métodos de detecção ou ii) a causa profunda da sintomatologia da Síndrome de Cotard (e de outras doenças psiquiátricas) não é fisica. A existência de casos com achados neurológicos apenas estabelece uma correlação, mas não uma relação causal inequívoca.

Contribuição espírita

De acordo com o paradigma materialista, a consciência é um produto do cérebro. Logo, não há como escapar da conclusão de que deve existir ao menos uma alteração neurológica (neuroquímica, neuromórfica etc) como causa profunda para todas as doenças mentais. Assim, a existência de casos sintomáticos sem evidências de alteração física constitui uma anomalia para esse paradigma. 

Do ponto de vista espírita, porém, é provável que os sintomas da Síndrome de Cotard sejam causados por uma "infestação psíquica": trata-se da afinidade entre o paciente e um Espírito desencarnado que faz com que o primeiro passe a experimentar as sensações mórbidas do segundo. Há uma sintonia, como no processo mediúnico, porém, o paciente "comunica" os sintomas típicos da entidade perturbada. Porém, é preciso reconhecer que o que faz com que o paciente seja atraído por esse tipo de consciência desencarnada pode ser ainda outra causa

Sim, ela pode ter origem orgânica, o que explicaria os casos em que foi possível identificar correlatos neurológicos. Esses afetam o Espírito do paciente que se desequilibra e sintoniza com algum Espírito em condições de morbidez. Nesse sentido, as alterações não geram diretamente os sintomas. Aliás, sobre isso, nada impede que um indivíduo com uma doença mental fisicamente estabelecida não sofra de uma obsessão, que é responsável por alguns de seus sintomas conforme o estágio da doença.

Porém, esses sintomas podem surgir de um desequilíbrio intrínseco da alma do paciente, com origem claramente espiritual, inclusive por causa de outra obsessão. Esse desequilíbrio conduz ao mesmo estado de sintonia espiritual que faz manifestar os mesmos sintomas. Dessa forma, podemos prever que o afastamento do Espírito obsessor apenas aliviará ou eliminará os efeitos associados à morbidez típica da Síndrome de Cotard, o que também explica o seu caráter transitório, como descrito na literatura [6]. 

Referências

[1] Karol Oliveira. Cadáver ambulante: conheça a síndrome em que a pessoa acredita estar morta. https://www.metropoles.com/saude/cadaver-ambulante-sindrome-morta . Metrópoles(acesso em 2025)

[2] Wikipedia (2025). Cotard's syndrome. https://en.wikipedia.org/wiki/Cotard%27s_syndrome (acesso em 2025).

[3] CIPRIANI, Gabriele, et al. ‘I am dead’: Cotard syndrome and dementia. International journal of psychiatry in clinical practice, 2019, 23.2: 149-156. Link: https://www.academia.edu/download/95018853/13651501.2018.152924820221129-1-1vecjdh.pdf  (acesso em 2025)

[4] SWAMY, N. C.; SANJU, George; MATHEW JAIMON, M. S. An overview of the neurological correlates of Cotard syndrome. The European journal of psychiatry, 2007, 21.2: 99-116. Link: https://scielo.isciii.es/pdf/ejpen/v21n2/original2.pdf (acesso em 2025)

[5] BERRIOS, German E.; LUQUE, Rogelio. Cotard's syndrome: analysis of 100 cases. Acta Psychiatrica Scandinavica, 1995, 91.3: 185-188. Link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/j.1600-0447.1995.tb09764.x (acesso em 2025)

[6] DIEGUEZ, Sebastian. Cotard syndrome. Neurologic-Psychiatric Syndromes in Focus Part II-From Psychiatry to Neurology, 2018, 42: 23-34. 

[7] A versão original e traduzida para o inglês dessa obra de 1838 pode ser encontrada em Internet Archive.

25 de agosto de 2024

I Jornada de História do Espiritismo com tema sobre Kardec

De 29 de novembro a 30 de novembro de 2024 acontecerá a "I Jornada de História do Espiritismo" no ICH da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Uma descrição do evento pode ser apreciado na imagem abaixo.

O congresso tem como tema "Allan Kardec: vida, ideia, obra e influências". Houve uma atualização no formato do evento, que agora será tanto presencial como online.

O evento não é gratuito. Para o público em geral é cobrada uma taxa de R$60,00; para estudantes de graduação, R$40,00, independentemente do formato do evento, se presencial ou online.

Inscrição e mais informações desse evento estão disponíveis na página:

https://www.sympla.com.br/evento/i-jornada-de-historia-do-espiritismo/2598693

5 de maio de 2024

A mediunidade de Orlando Noronha Carneiro

 

A psicografia como fenômeno é de extraordinária versatilidade. No dizer de Kardec [1]:
De todos os meios de comunicação é a escrita o mais simples, o mais cômodo e, so­bretudo, o mais completo. É para ela que devem tender todos os esforços, pois que per­mite estabelecer com os Espíritos relações tão continuadas e tão regulares quanto as que existem entre nós. 
Essa versatilidade da psicografia ainda está por se revelar por completo. A prova disso foi a enorme quantidade de informação proveniente de desencarnados em psicografia de médiuns veteranos como Chico Xavier e Divaldo Franco. Se outros tipos de mediunidade quase que desapareceram (como é o caso da mediunidade de efeitos físicos, materializações etc), semelhante situação não aconteceu com a psicografia, cumprindo a esperança de Kardec. Esse também é o caso do médium Orlando Noronha Carneiro.

Orlando é natural de Osasco/SP e iniciou atividades dentro do Movimento Espíritas em 1980. Em suas visitas ao médium espírita Chico Xavier, esse lhe disse que Orlando continuaria na tarefa das cartas familiares. As principais informações sobre o trabalho com cartas psicografadas pode ser encontrado em diversos canais do YouTube dentre os quais se destaca o "Mensagens de Luz" [2], onde é possível acessar talvez centenas de mensagens que são lidas pelo médium diante dos parentes enlutados.  Uma entrevista recente com o médium pode ser assistida em [3].

O site "Portas do Amor" (https://www.portasdoamor.com.br/) traz informações e a agenda presencial do Orlando para o ano. Videos desse site também podem ser assistidos no Youtube pelo endereço [5].

Exemplos

A quantidade de videos já disponibilizados impressiona pela quantidade e qualidade das mensagens que trazem conteúdo altamente relevante aos parentes. Eles formam um conjunto demonstrativo importante - tanto em variedade como em quantidade - de como se processa o fenômeno. 

As informações mais relevantes passadas nas cartas são justamente os conteúdos pragmáticos (ou seja, informação dependente do contexto), que apenas fazem sentido aos parentes mais próximos e que não estão publicamente disponíveis. Também estão presentes desenhos (principalmente no caso de crianças) e assinaturas. 

Em um vídeo de 2018, os pais de Gabriel, desencarnado em maio de 2018, relatam sua experiência com a psicografia que receberam. De seu depoimento destamos em síntese: "Tudo bateu...Tudo o que ele descreveu, realmente é do Gabriel." De acordo com os pais, inúmeros detalhes na carta demonstraram a eles a procedência de seu filho, inclusives acontecimentos familiares simples, mas que só eram conhecidos dos familiares mais próximos. Outros depoimentos também podem ser encontrados relatando detalhes em cartas que muito confortaram parentes próximos diante do drama da morte e as dores do luto.

A importância das cartas psicografadas particulares

Nunca será demais reler o que diz Kardec sobre a "utilidade das evocações particulares", que está no Capítulo 25 de "O Livro dos Médiuns" (1):
Ora, os Espíritos superiores são as sumidades do mundo espírita; a própria elevação em que se acham os coloca de tal modo acima de nós, que nos assusta a distância a que deles estamos. Espíritos mais burgueses (que se nos relevem esta expressão) nos tornam mais palpáveis as circunstâncias da nova existência em que se encontram. Neles, a ligação entre a vida corpórea e a vida espírita é mais íntima, compreendemo-la melhor, porque ela nos toca mais de perto. Aprendendo, com eles mesmos, em que se tornaram, o que pensam e o que experimentam os homens de todas as condições e de todos os caracteres, assim os de bem como os viciosos, os grandes e os pequenos, os ditosos e os desgraçados do século, numa palavra, os que viveram entre nós, os que vimos e conhecemos, os de quem conhecemos a vida real, as virtudes e as fraquezas, bem lhes compreendemos as alegrias e os sofrimentos, a umas e outros nos associamos e destes e daquelas tiramos um ensinamento moral, tanto mais proveitoso, quanto mais estreitas forem as nossas relações com eles. Mais facilmente nos pomos no lugar daquele que foi nosso igual, do que no de outro que apenas divisamos através da miragem de uma glória celestial. 
Há outro ponto importante que se formará, inexoravelmente, com o acúmulo de cartas. Dado que muitas delas trazem citação de nomes, seu histórico formará um grande registro de intercâmbio, cujo objetivo é cumprir a função consoladora do Espiritismo no esclarecimento sobre a vida após a morte e sustentação aos parentes em luto.

Sobre isso, lançamos mão de um paralelo. No primeiro episódio de "Harry Potter" de autoria da escritora Britânica J. K. Rowling, Harry, o personagem principal é convidado à iniciação como mago na escola de Hogwarts por meio de uma carta enviada em correio especial, usando corujas. Acontece que seus parentes invejosos interceptavam as missivas. Não foi uma nem dez cartas que foram interceptadas, na tentativa inútil de impedir que Harry seguisse seu destino. O contra ataque foi devastador: não apenas centenas, mas milhares de cartas foram enviadas a Harry, até que uma fosse lida por ele. Assim acontece com as cartas psicografadas particulares: se algumas cartas não são suficientes para convencer da realidade maior da vida após a morte, o que dizer de milhares delas? Nada poderá impedir que elas continuem a vir e prover consolação aos que choram seus entes queridos provisoriamente transferidos para o mais além.

Referência

Nos links abaixo, referências acessíveis em abril de 2024.

1 -  A. Kardec. "Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas", Capítulo V – Dos médiuns, Médiuns escreventes ou psicógrafos. "O Livro dos Médiuns". Versão Ipeak, www.ipeak.com.br.
2 - https://www.youtube.com/@MensagensdeLuz-Oficial/videos 


3 de abril de 2024

Por que educação ambiental e ecologia são relevantes para o movimento espírita? (Parte II)

A aula ambiental de Aniceto


Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. 
Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. 

Romanos 8:19-21

Conforme vimos no post anterior [1], a necessidade de educação ambiental e ecologia se impõe ao movimento espírita não como assunto de interesse meramente intelectual. Ao contrário, ela é o resultado da própria ética espírita aplicada não apenas aos semelhantes e a nossa relação com o Poder Superior, mas também com as coisas aparentemente menores que nós. Até hoje, acreditamos poder dispor e destruir essas coisas porque são "nossa propriedade". Dado que ainda não se pode forçar a lei de amor no coração da maioria dos homens, é preciso educar para essa lei, a começar talvez pela maneira como consideramos todos os seres e recursos naturais que nos cercam. Repetida milhares de vezes pela razão e compreendida pelo intelecto, quem sabe um dia essa lei finalmente encontre abrigo no coração.

Mas, poderíamos nos perguntar, existem referências explícitas na literatura espírita sobre a necessidade de preservação do meio ambiente? O assunto era demais novo para Kardec no Século XIX. Existem, entretanto, algumas referências indiretas nele como, p. ex., citado em [2] que se refere à citação de A Gênese:

Tudo no Universo se liga, tudo se encadeia, tudo se acha submetido à grande e harmoniosa lei de unidade.
Há obviamente a questão 750 de O Livro dos Espíritos, mas ainda como lição que exige dedução do leitor sobre qual lado ele deve se posicionar no debate da preservação ambiental. Conhecemos o argumento de que não é objetivo do Espiritismo se imiscuir com qualquer aspecto material da existência, mas prover lições que ajudem a alma a progredir moralmente apenas. 

Porém, essa conclusão permite certas observaçoes complementares.  Por exemplo, André Trigueiro escreveu recentemente Espiritismo e Ecologia [4], importante referência para esse despertar de consciência. Outros estudiosos também chamaram a atenção para a relevância do tema no Movimento Espírita [5]. Já em O Consolador, de Emmanuel [6], uma seção inteira "Biologia" (Primeira Parte) é dedicada à Natureza, com especial atenção às questões 27, 28 e 29 dessa obra.

Um tanto esquecido, mas muito mais direta é a preleção feita pelo Espírito Aniceto que pode ser lida no Cap. 42, "O evangelho no ambiente rural", de Os Mensageiros [3] de 1944. Como não assisti à versão para o cinema, não sei se foi explorada nessa nova versão para a sétima arte. Aqui analiso essa passagem dessa obra que apresenta muitos pontos de reflexão.

Depois de citar uma passagem da Epístola aos Romanos (8, 19-21, reproduzida no início deste post), Aniceto dá início a seus comentários sobre ela:

Há milênios a Natureza espera a compreensão dos homens. Não se tem alimentado tão somente de esperança, mas vive em ardente expectação, aguardando o entendimento e o auxílio dos Espíritos encarnados na Terra, mais propriamente considerados filhos de Deus. Entretanto, as forças naturais continuam sofrendo a opressão de todas as vaidades humanas. Isto, porém, ocorre, meus amigos, porque também o Senhor tem esperança na libertação dos seres escravizados na Crosta, para que se verifique igualmente a liberdade na glória do homem. (grifos meus)

É a confirmação de que há um laço de fraternidade a unir a Humanidade a todos os seres e que esse coletivo de seres (e os recursos não bióticos)  aguarda sua consideração. Por enquanto, ela sofre a "opressão de todas as vaidades humanas". 

Conheço-vos de perto os sacrifícios, abnegados trabalhadores espirituais do solo terrestre! Muitos de vós aqui permaneceis, como em múltiplas regiões do planeta, ajudando a companheiros encarnados, acorrentados às ilusões da ganância de ordem material. Quantas vezes, vosso auxílio é convertido em baixas explorações no campo dos negócios terrestres? (grifos meus)

É referência ao auxílio dos Espíritos nas atividades humanas (questão 459 de O Livro dos Espíritos), mas  que têm sido corrompidas por meio de "baixas explorações" nos negócios da Terra. A preleção continua ainda mais vigorosa:

A maioria dos cultivadores da terra tudo exige sem nada oferecer. Enquanto zelais, cuidadosamente, pela manutenção das bases da vida, tendes visto a civilização funcionando qual vigorosa máquina de triturar, convertendo-se os homens, nossos irmãos, em pequenos Moloques de pão, carne e vinho, absolutamente mergulhados na viciação dos sentimentos e nos excessos da alimentação, despreocupados do imensa débito para com a Natureza amorável e generosa. (grifos meus)

É uma referência explícita aos métodos de cultivo exploratório e às quase insaciáveis necessidades humanas que sustentam essa exploração insustentável. A civilização, não obstante seu avanço tecnológico, ainda dispõe dos recursos naturais como uma "máquina de triturar. "Moloques de pão, carte e vinho" é uma imagem-referência a Moloque do Velho Testamento, conhecido deus aterrorizante cujo culto exigia o sacrifício de crianças. Aniceto acusa assim a sociedade moderna de "viciação de sentimentos e excessos de almentação" e falta de consideração "para com a Natureza amorável e generosa".
Eles oprimem as criaturas inferiores, ferem as forças benfeitoras da vida, são ingratos para com as fontes do bem, atendem às indústrias ruralistas, mais pela vaidade e ambição de ganhar, que lhes são próprias, que pelo espírito de amor e utilidade, mas também não passam de infelizes servos das paixões desvairadas. Traçam programas de riqueza mentirosa, que lhes constituem a ruína; escrevem tratados de política econômica, que redundam em guerra destruidora; desenvolvem o comércio do ganho indébito, colhendo as complicações internacionais que dão curso à miséria; dominam os mais fracos e os exploram, acordando, porém, mais tarde, entre os monstros do ódio! (grifos meus)

Essa parece ser uma análise bastante real da situação presente, ainda que feita em 1944. Desde então, somente pioraram as condições ambientais, e nosso mundo já está sofrendo com possíveis rupturas climáticas imprevisíveis. A corrupção que leva à poluição e ao desequilíbrio ambiental é fruto dessas forças inferiores em busca de "ganho indébito". Nessa passagem, Aniceto também descreve as consequências da "colheira obrigatória" a que exploradores desenfreados das forças naturais estão sujeitos pela exploração sem considerações para os recursos da Natureza. 

Por fim, considera o destino espiritual dos "seres sacrificados":

O Senhor reserva acréscimos sublimes de valores evolutivos aos seres sacrificados. Não olvidará Ele a árvore útil, o animal exterminado, o ser humilde que se consumiu em benefício de outro ser!
Arrisco dizer que essas são as declaraçõeos mais diretas feitas na literatura espírita sobre as questões relacionadas à preservação do meio ambiente e ao respeitos aos recursos naturais.

Conclusões

A relação de propriedade formal como direito, ainda que transitória, tem como dever correspondente a obrigação de preservação. Presevar o meio ambiente e viver em estado de sustentabilidade é portanto, uma manifestação da lei de amor aplicada aos "mais fracos".

Da mesma forma como a geração presente sofre no clima a consequência de ações ambientais destrambelhadas do passado, o Espírito encarnado ou não, não poderá fazer jus a uma morada mais aprimorada no futuro com desprezo a esses novos princípios. Se podemos falar em "lei de causa e efeito" para as relações entre os homens, essa mesma lei atua com relação a esses e o meio ambiente.

Se em parte podemos atribuir a nossa ignorância a falhas no entendimento do respeito ao meio-ambiente, hoje isso não é mais possível. Tanto pela provas científicas dos impactos da exploração desenfreada do lado material, como pela negação do materialismo, que desconhece a relação de afinidade que liga todos os seres.

Se a missão do Espiritismo é destruir o materialismo, também é sua missão ensinar porque é relevante respeitar o todas os seres e recursos naturais pela redução da viciação de sentimenos e excessos de alimentação. Para o materialista, a preservação importa como meio de sobrevida presente; para o espiritualista, como chance de novas oportunidades no futuro além da morte que atesta sua fraternidade e seus laços de ligação com todas as coisas e seres viventes.

Referências

[1] Por que educação ambiental e ecologia são relevantes para o movimento espírita? (Parte I). Ver: https://eradoespirito.blogspot.com/2024/03/por-que-educacao-ambiental-e-ecologia.html

[2] FEB (2023). O Espiritismo e a consciência ecológica. Acessado conforme disponível em março de 2024:  https://www.febnet.org.br/portal/2023/04/22/o-espiritismo-e-a-consciencia-ecologica/

[3] Xavier F. C. (2023). Os Mensageiros, Ed. FEB. 47a Edição.

[4] Trigueiro A. (2022). Espiritismo e Ecologia. FEB Editora; 5ª edição.ISBN-13 ‏ : ‎ 978-6555704372

[5] Miguel S. H. (2023). Espiritismo e desenvolvimento sustentável: caminhos para a sustentabilidade.Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano XV, n. 45

[6] Xavier F. C (1940). O Consolador. 4a Edição, FEB

2 de março de 2024

Por que educação ambiental e ecologia são relevantes para o movimento espírita? (Parte I)

 
Isso parece simples: já não cantamos nosso amor por e como obrigação para com a terra dos livres e a morada dos bravos? Sim, mas exatamente o que e quem amamos? Certamente não o solo, que sem qualquer ordenamento despachamos rio abaixo. Certamente não as águas, que assumimos não ter qualquer função a não ser para girar turbinas, flutuar barcaças e transportar esgoto. Certamente não as plantas, das quais exterminamos comunidades inteiras sem pestanejar. Certamente não os animais, cujas maiores e mais belas espécies extirpamos. Uma ética da terra, é claro, não pode impedir a alteração, gestão e uso desses "recursos", mas afirma seu direito à existência continuada, e, pelo menos em alguns pontos, sua existência continuada em seu estado natural. (A. Leopold, “A ética da terra”).
Pode-se considerar a interação do indivíduo - espírito encarnado, no estágio de desenvolvimento moral do ser humano - como um conjunto de relações que ele tem consigo mesmo, com Deus e com o que está fora dele. Em termos mais específicos:
  • A relação do indivíduo com ele mesmo: o que sei sobre mim, quem penso que sou e como devo regular minhas ações para me beneficiar em inúmeros sentidos, por exemplo, moralmente. É a ética do "conhece-te a ti mesmo".
  • A relação do indivíduo com outrem: com o meu próximo; como devo me portar diante dos outros e quais são meus direitos e deveres. É a ética da "lei áurea" e do "Sermão das Bem-aventuranças" [2], que governa minhas ações para com o próximo, e de onde se origina a verdadeira felicidade, ainda que não reconhecida pela jurisprudência humana da atualidade.
  • A relação do indivíduo com a sociedade: qual o meu papel em minha comunidade e país? Quais são meus direitos e deveres do ponto de vista social? Democracia, direito à vida, ao trabalho e as diferentes obrigações (pagamento de impostos etc) refletem essa relação.
  • A relação do indivíduo com Deus: Como minha crença em um poder superior (qualquer que ele seja), regula minhas expectativas em relação ao futuro e diferem em intensidade e teor daqueles que não creem nesse poder? É o domínio da ética da espiritualidade e da Religião.
  • E a relação do indivíduo com o ambiente que o cerca.
À medida que progride moralmente, modifica-se a maneira como essas relações ocorrem. O indivíduo se sente cada vez menos dono do que tem a sua volta. Evoluimos com relação à como nos entendemos, a como tratamos nossos semelhantes, a como vivemos em sociedade e sobre como entedemos e nos relacionamos com Deus. Porém, como temos evoluído em relação ao meio ambiente? Falta ainda, no dizer de Aldo Leopold, uma "Ética da terra" [1], que regularia nossa relação com o meio natural.

Isso porque o ambiente que cerca o homem sempre foi visto como sua propriedade. Mesmo há pouco tempo, como propriedades também foram consideradas vidas de agrupamentos humanos inteiros escravizados por uma minoria dominante. 

Ora, é evidente que a evolução espiritual deve levar a uma mudança radical na maneira como consideramos esse ambiente. Passaremos a considerar a Natureza e suas vastas reservas de energia, matéria e vida, como entidades a serem respeitadas. Os animais, vegetais e todos os recursos abióticos não são apenas "propriedades" a serem exploradas e exauridas, mas recursos que devem ser aproveitados com a menor interferência e com o maior respeito possíveis. Essa não interferência leva a duas obrigações: utilizar-se da Natureza apenas naquilo que é necessário e repor o que for retirado. 

Essas obrigações se vinculam em torno dos conceito de sustentabilidade: 
  • é qualquer sistema capaz de subsistir indefinidamente a partir de seus próprios recuros ou, pelo menos, por um longo período de tempo. 
  • Ser sustentável significa abastecer-se conforme a medida do necessário - porque necessário é minimizar o impacto da interferência no ambiente natural - sem subprodutos que levem à deteriorização desse ambiente. 
Qualquer coisa que exceda ao necessário é consequência da ignorância e do egoísmo. E o egoísmo é marca de Espíritos ainda inferiores. Assim, ascender espiritualmente é desvencilhar-se do apego que leva à tentativa de dominação de tudo que é externo a nós.

Apenas muito recentemente a necessidade de preservação começou a ser valorizada pelas sociedades mais desenvolvidas. Na esteira dos impactos negativos sobre o clima e das ameaças evidentes ao equilíbrio econômico, setores mais esclarecidos passaram a considerar a necessidade de coordenação global para se preservar o meio-ambiente.  

Naturalmente, a discussão em torno da "ética da Terra" pode ganhar muito com a visão espiritualista, além do que a argumentação materialista pode fazer (como em [3]). Se, do ponto de vista materialista é necessário respeitar a Natureza por uma "necessidade ecológica'', "considerações morais" ou "valor intrínseco da vida", para os espiritualistas a vida deve ser respeitada simplesmente porque nossa essência é espiritual e compartilhamos com os seres vivos uma fraternidade universal. 

Assim, para os espíritas, ações de preservação ambiental não podem ter por base apenas a constação de degradação e ameaças ao clima. Elas são o resultado de: 
  • Uma concepção mais dilatadas que vê o homem como uma parte ínfima da Natureza e não seu senhor. 
  • Logo, o mesmo respeito que devemos aos semelhantes, devemos ao ambiente que nos cerca. É uma extensão da lei do amor ao próximo.
Esse respeito se fundamenta na grande irmandade que liga todos os seres, inclusive aqueles que vivem em outros mundos. Pois essa grande "fraternidade universal" é formada por uma vasta cadeia de ecosistemas e seres que se extendem por todo o Universo em marcha progressiva em direção à angelitude e a Deus.

Referências

[1] LEOPOLD, A. A ética da terra. Appris Editora; 1ª edição,, 2020. ISBN-13 ‏ : ‎ 978-6555231410

[2] Ver o post "Bens, direitos, deveres e obrigações da alma",  https://eradoespirito.blogspot.com/2022/12/bens-direitos-deveres-e-obrigacoes-da.html

[3]  CARDOSO, André. Os Fundamentos da Ética da Terra e o Problema do Ecofascismo. Sofia, v. 12, n. 1, 2023. https://doi.org/10.47456/sofia.v12i1.40454.


1 de fevereiro de 2024

Novidades sobre o Eletroma e campos morfogênicos

 

...todo remédio da farmacopeia humana é, até certo ponto, projeção de elementos quimioelétricos sobre as agregações celulares, estimulando-lhes as funções ou corrigindo-as, segundo as disposições do desequilíbrio em que a enfermidade se expresse.
A. Luiz [1]

Uma grande variedade de corpos se interpenetram e formam o corpo humano: o genoma como agregado de genes distribuídos, o proteonoma como agrupamento de elemento proteicos e muitos outros. O mais recente deles foi batizado de "Eletroma" [2] e é formado pelo agrupamento de elementos biológicos que são atuados pela eletricidade própria do organismo. Trata-se de um conceito relativamente novo em sua aplicação médica, porém, um assunto que já tem certa história. O objetivo de Luigi Galvani (1737-1798) com suas experiências elétricas e pernas de rã era estabelecer o papel da eletricidade nos organismos vivos.

A história porém está sendo reeditada com novas descobertas. Um exemplo são as pesquisas realizadas pela equipe do Dr. Michael Levin, que é diretor do Allen Discovery Center na Universidade Tufts [2b]. A reedição pode criar em uma verdadeira revolução na biologia e na medicina.

A equipe do Dr. Levin ressaltou o papel fundamental de campos elétricos na matéria viva que orientam o processo de formação de estruturas funcionais em embriões (girinos). Apresentam demonstrações experimentais em que a eletricidade é um tipo de "campo morfogênico" [3] para as células que participam da formação de embriões. 

Mas o que causa esses campos? Por enquanto, segundo a interpretação do Dr. Levin, eles são gerados pelas próprias células que, graças a um instinto inteligente primitivo  - uma espécie de "inteligência coletiva" - produz correntes elétricas e separação de cargas. Os campos criados pela separação das cargas induzem a formação apropriada de órgãos e outras estruturas menores "orientados" pelos campos elétricos. 

Uma parte considerável da explicação do Dr. Levin é que células contêm inteligência pela sua capacidade de resolver problemas no meio em que vivem. Cada célula de um tecido vivo sabe assim o que fazer conforme o ambiente em que seja colocada. Segundo esse pesquisador, elas "resolvem um problema computacional" enorme (como se tivem um tipo de "inteligência artificial") por meio dessa inteligência coletiva. Nesse processo, induzem à formação de padrões eletromagnéticos ou "campos bioelétricos configuracionais endógenos" [3] que foram registrados por equipamentos especiais desenvolvidos no centro coordenado pelo Dr. Levin. 

Para adiantar essas e outras conclusões, o emintente pesquidor utiliza a definição operacional de inteligência do famoso cientistas espiritualista ingles Willian James (1842-1910):
Inteligência é a capacidade de alcançar o mesmo objetivo usando meios diferentes.
Segundo o Dr. Levin [2b], um video de microscópio da bactéria Lacrymaria olor demonstra esse conceito. Um ser que não tem cérebro e nem sistema nervoso possui elevada competência na solução de problemas complexos em seu meio o que é intrigante, no mínimo. Assim, não importa o tipo de corpo em que a inteligência se manifeste: se o ser é inteligente ele tem competência para resolver problemas desde que confrontado com dificuldades e os estímulos apropriados. 

William James (1842-1910) pode ser invocado em uma definição operacional de inteligência que permite reconhecer essa propriedade mesmo em organismos unicelulares. 

Da Farmacêutica para a "Eletrocêutica"

Toda essa estória nos faz lembrar dos "campos morfogênicos" de R. Sheldrake [4] e, mais para trás no tempo, do "modelo organizador biológico" de Carlos A. Tinoco [5] e Hernani G. Andrade (1913-2003) [6] ou os campos "L" de Harold Saxton Burr (1889-1973). Antes, porém, que espíritas vejam nos campos elétricos morfogênicos do Dr. Levin uma comprovação das ideias de Sheldrake, Burr, Tinoco e Andrade, é preciso compreender as motivações das pesquisas do Dr. Levin que são bastante práticas. 

O objetivo é desenvolver novas formas de tratamento e regeneração de tecidos humanos, visando o projeto de futuros orgãos ou até membros no corpo humano. Não seria possível fazer crescer um novo braço em um amputado como aconteces nos axolotes? Além disso, algumas doenças como tumores poderiam ser tratados fazendo com que células tumorais reconhecessem o ambiente e passassem a se comportar como células normais com já se demonstrou em girinos... 

Para isso, separação de cargas (polarização) e campos elétricos específicos seriam "desenhados" ou "induzidos" por drogas específicas ou "quimioelétricas". Essas drogas seriam supridas por uma "eletroceutica" específica que começa pelo projeto de campos elétricos morfogênicos induzidas por elas. 

Consequências para a visão espírita

Feita essa introdução é possível especular com respeito à amplitude dessas descobertas recentes sobre o eletroma e o "corpo elétrico". Inicialmente, as conclusões sobre a importância dos "canais iônicos" [10] me fizeram lembrar do fragmento de texto citado no início deste post. Parece ser uma validação de uma ideia trazida por André Luiz em seu livro "A Evolução em dois mundos" [1]. Seria por isso que o autor espiritual já falava em 1958 sobre os "elementos quimioelétricos"? Mas nessa época, a descoberta do DNA e os avanços na genética destacavam a importância do "genoma" na formação do corpo humano. Não se via qualquer importância para a eletricidade no contexto da formação do corpo humano ou das doenças.

Notem bem a distância que essas novas descobertas [9] colocam a biologia: a morfogênese não se deve unicamente à ação de "genes" no "genoma" e reações bioquímicas, mas faz uso de um elemento invisível orientador e intermediário que é gerado no interior da matéria viva. Lembramos que campos elétricos são entidades físicas invisíveis e sem fronteiras definidas. O mecanismo de ação à distância que move íons e proteinas no citoplasma das células [8] é o conhecido "efeito de dieletroforese". Para a biologia, trata-se de um efeito "epigenético" que atua sobre as células fazendo-as modificar seu comportamento muito além do que está "programado"  pelos genes.

O primeiro passo dado em direção às consequências dos estudos do grupo do Dr. Levin para a visão espírita está na própria noção de inteligência que usa. Pois, se essa é definida como uma propridade sem referência ao tipo de "veículo de manifestação" (que é material), é que a inteligência é um princípio independente, o próprio "princípio inteligente" encontrado nas Questões 23-25 de "O Livro dos Espíritos" de A. Kardec.

Um dos experimentos do Dr. Levin  fornece a prova [2b]. Ao isolar células embrionárias que se tornariam a pele de um sapo, os pesquisadores da Universidade de Tufts descobriram que, ao invés de morrerem ou se desenvolverem como uma massa disforme de células de pele, elas se transformam em seres multicelulares novos, os Xenobots [7]. Esses nadam, se viram sozinhos em labirintos e até conseguem gerar novos xenobots pela assimilação de células da pele! Ou seja, é como se Xenobots tivessem uma "memória" de experiências passadas (que nunca teriam tido pela evolução Darwinista) quando não eram células de pele...

Assim, além da existência de um interface morfogênica, esses experimentos demonstram a existência do princípio inteligente em cada célula que compõe um organismo complexo. Cada célula de nosso corpo tem memória, inteligência e competência para resolver problemas desde que estimulada. É um ser a parte, que contribui com a sua "parte" no ambiente multicelular que  o envolve e cujo comportamento está apenas parcialmente "programado" nos genes que  carrega.

Ao mesmo tempo em que essas descobertas recentes parecem colocar um ponto final nos debates sobre "camposo morfogênicos", no meu entendimento, elas têm consequências tremendas para uma nova visão da vida e do papel do princípio inteligente (o espírito) na matéria.

Referências e comentários

[1] A. Luiz (1958). Evolução em dois Mundos, 2a  Parte 4a Ed. FEB.  Ver Cap. XIX.

[2]  V. Smink (2023) O que é electroma, rede do corpo humano recém-descoberta que pode revolucionar tratamento do câncer. Saúde "G1". Acessível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2023/03/04/o-que-e-electroma-rede-do-corpo-humano-recem-descoberta-que-pode-revolucionar-tratamento-do-cancer.ghtml 

[2b] Youtube (2023). From Mind to Matter - Dr. Michael Levin. Ver vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Ed3ioGO7g10      

[3] Levin, M., Pezzulo, G., & Finkelstein, J. M. (2017). Endogenous bioelectric signaling networks: exploiting voltage gradients for control of growth and form. Annual review of biomedical engineering, 19, 353-387. Acesso aqui.



[6] H. G. Andrade. O psi quântico. Ed. Casa Editora Espírita "Pierre-Paul Didier". H. G. Andrade chamou esse campo de "CBM" ou "campo biomagnético" e acreditava ser possível induzir campos eletrostáticos em um "continuum" quadridimensional a partir de campos magnéticos. As descobertas modernas apontam para algo bem mais simples: os campos são eletrostáticos, porém, são estabelecidos por correntes de íons (os tais "canais iônicos") que existem em torno e dentro de qualquer célula viva. 

[7] Blackiston, D., Lederer, E., Kriegman, S., Garnier, S., Bongard, J., & Levin, M. (2021). A cellular platform for the development of synthetic living machines. Science Robotics, 6(52). Acesso aqui.

[8] Henslee, E. A. (2020). Dielectrophoresis in cell characterization. Electrophoresis, 41(21-22), 1915-1930.

[9] Nunn, A. (2023). We Are Electric: The New Science of Our Body's Electrome, by Sally Adee. Bioelectricity, 5(2), 147-149.

[10] Funk, R. H., Monsees, T., & Özkucur, N. (2009). Electromagnetic effects–From cell biology to medicine. Progress in histochemistry and cytochemistry, 43(4), 177-264.



2 de janeiro de 2024

O que é Xamanismo?

Segundo D. Baxendale, esta é Galba uma das últimas xamãs dos povos Tuvan que vivem próximos dos montes Altai na Mongólia. (foto: flickr.com)
A palavra "xamã" e sua crença associada, o "xamanismo", envolvem práticas ancestrais estudadas pela Antropologia. Essa disciplina se dedica em parte a registrar e explicar as manifestações do xamanismo que existem em diversas partes do mundo entre povos considerados "primitivos". 

A palavra, entretanto, recebeu ao longo do tempo inúmeros significados. Essa multiplicidade de significados já foi apontada por exemplo em [1] que descreve diversas definições na Antropologia. Segundo esse autor, a palavra tem origem em alguns estudos realizados com a tribo dos Tungus na região da Sibéria a partir de 1920. Para os Tungus, os xamãs eram:
Pessoas de ambos os sexos que dominaram os espíritos, e que, à sua vontade, podem introduzir esses espíritos em si mesmos e usar o seu poder sobre os espíritos em seus próprios interesses, particularmente ajudando outros pessoas que sofrem com os espíritos. [1, p. 3]

Que coisa! Segundo essa definição original, aprendemos que o xamanismo opera provavelmente segundo os princípios da mediunidade. Pela definição operacional de A. Kardec (Cap. XV de "O Livro dos Médiuns") "todo aquele que sente em qualquer grau a presença dos espíritos é por isso mesmo médium". 

Porém, o conceito evoluiu nos estudos antropológicos de forma a incorporar outras práticas que são consideradas vulgarmente "mágicas" na elasticidade semântica que esse adjetivo pode implicar. O autor de [1] apresenta uma definição sintetizada que agrega outras características do xamã:

Um xamã é uma pessoa que, à vontade, pode entrar em um estado psíquico incomum (na qual ele faz sua alma empreender uma jornada para o mundo espiritual ou ele se torna possuído por um espírito) para fazer contato com o mundo espiritual em nome dos membros de sua comunidade.

Essa definição inclui talvez a possibilidade de "desdobramento", quando a contraparte não corpórea do xamã pode se afastar do corpo físico e realizar determinadas tarefas em contato com o mundo espiritual. Nas descrições acadêmicas das atividades dos xamãs, porém, há uma confusão entre a noção de "influência dos espíritos" e a "possessão". Esses estados psicológicos tendem a ser sempre apresentados como equivalentes.

Em outra definição mais recente [2]:

O "xamanismo” foi recentemente descrito como uma forma de interação entre um praticante e espíritos, que não está disponível para outros membros de uma comunidade. O praticante (um “xamã”) atua em nome dessa comunidade – ou em nome de membros individuais dessa comunidade – para desempenhar uma variedade de papéis sociais que podem incluir curar, bem como prejudicar, afetando o resultado das atividades de subsistência, e assim por intervenção com espíritos ou através de conhecimentos adquiridos pela comunicação com espíritos.

Portanto, o xamanismo pode assim ser considerada uma manifestação do "mediunismo" (ou prática mediúnica) por meio da qual determinados favores, para o bem ou para o mal, são obtidos usando as capacidades do "xamã". Esse é um membro especial de uma sociedade como "guardião de poderes sobre os Espíritos" cujo papel deve ser destacado em todas as descrições do xamanismo. 

Ornamentos mexicanos. (Fonte: www.publicdomainpictures.net)

R. Walsh em 1989 [3] considera que o xamanismo não pode ser definido em termos de categorias à posteriori, mas que deve ser tomado como um fenômeno único. Essa necessidade vem da homogeneidade das descrições de atuação dos xamãs diante das enormes diferenças de crenças e religiões associadas ao xamanismo:

É interessante notar que os elementos desta definição centram-se em práticas e experiências e não em crenças e dogmas. Isto é consistente com a afirmação de Michael Harner de que "o xamanismo é, em última análise, apenas um método, não uma religião com um conjunto fixo de dogmas. Portanto, as pessoas chegam a conclusões derivadas de sua própria experiência sobre o que está acontecendo no universo, e sobre que termo, se houver, é mais útil para descrever a realidade última".

Em suma: é mais uma prova de que se trata de um fenômeno mediúnico e generalizado na população mundial sem relação com suas religiões. Porém, essas religiões podem promover ou sufocar o xamanismo.

Em particular, a modernidade tende a eliminar essas práticas antigas por considerá-las frutos da superstição. Em seu lugar surgiu o "xamanismo moderno" que se insere por meio de vasta literatura de auto-ajuda recente que pretende despertar o "xamã interior" de cada indivíduo [4].  Esse novo xamanismo nada tem a ver com o original.

Por outro lado, a mediunidade continua a exercer sua influência de outras formas na sociedade moderna. Porém, isso é uma assunto para outro post.

Referências

[1]  Reinhard, J. (1976). Shamanism and spirit possession: the definition problem. Spirit possession in the Nepal Himalayas, 12-20. Link de acesso aqui.

[2] Pollock, D. (2019). Shamanism. Oxford Bibliographies. DOI: 10.1093/OBO/9780199766567-0132

[3] Walsh, R. (1989). What is a shaman? Definition, origin and distribution. Journal of Transpersonal Psychology, 21(1), 1-11.

[4] Basta considerar apenas um exemplo (entre milhares nos últimos anos):  Lobos, M. (2021). Awakening Your Inner Shaman: A Woman's Journey of Self-Discovery through the Medicine Wheel. Ed. Hay House Inc. 


18 de dezembro de 2023

Quantos Espíritos já reencarnaram na Terra?


Será lícito calcular a população de criaturas desencarnadas em idade racional, nos círculos de trabalho, em torno da Terra, para mais de vinte bilhões, observando-se que alta percentagem ainda se encontra nos estágios primários da razão e sendo esse número passível de alterações constantes pelas correntes migratórias de espíritos em trânsito nas regiões do planeta.
A. Luiz (Anuário Espírita, ed. 1964, nº 1)

Uma das dúvidas recorrentes que podem surgir no estudo da reencarnação é de sua relação com a demografia. Conforme a resposta à Questão 166 de "O Livro dos Espíritos", por exemplo, há a declaração de que "todos nós temos muitas existências" e mais, que "os que dizem o contrário querem manter-vos na ignorância em que eles mesmos se encontram".

O problema que surge é de como acomodar a ideia de "muitas vidas" em uma população mundial que apenas muito recentemente atingiu cifras acima de um bilhão de indivíduos. Na maior parte da história da Humanidade, a população do planeta não excedeu ao montante de indivíduos das nações mais populosas do Ocidente da ordem de vários milhões. Se todos os Espíritos sempre estiveram nas cercanias do orbe terreno, o mais provável é que eles experimentaram apenas uma encarnação no planeta Terra em toda a história da humanidade. E essa vida ocorre justamente no momento presente quando a Terra atingiu a maior população desde então.

Uma solução possível é considerar que a declaração dos Espíritos é de caráter geral: não são encarnações vividas todas elas exclusivamente na Terra. Nosso planeta receberia um fluxo contínuo de novos Espíritos provindos de mundos dispersos no espaço. Sabemos que existem muitos bilhões desses mundos só em nossa galáxia, que é uma entre bilhões de galáxias... Logo isso está de acordo com a Questão 172, cuja resposta explica que as várias vidas podem ser vividas "em diferentes mundos". 

A continuação do estudo na Questão 173 retorna ao ponto anterior. Os Espíritos afirmam que se "pode viver muitas vezes no mesmo globo, se não se adiantou bastante para passar a um mundo superior". E, a resposta da questão 173(a) confirma que se pode "reaparecer muitas vezes na Terra". De qualquer forma, o assunto abre possibilidades de vários estudos em torno de demografia e reencarnação. Tivemos a oportunidade de contribuir nessa direção em um estudo anterior [1].

Quantas pessoas já viveram na Terra?

O problema parece ser uma sutileza, mas não é tão simples resolver. Em um interessante artigo recente, T. Kaneda e C. Haub [2] se propõem a calcular o número total de habitantes que já viveram na superfície da Terra. Esse número é importante pois, se ele for da ordem da população presente, estaríamos de fato em um momento singular de nossa história. 

Acontece que o exercício é um jogo de hipóteses e suposições sobre a curva de crescimento da população antiga, bem como suas condição de vida mas não de sua taxa de mortalidade. Segundo Kaneda & Haub: 

Qualquer estimativa do número total de pessoas que já viveram depende essencialmente de três fatores: o período de tempo que se pensa que os humanos estiveram na Terra, o tamanho médio da população em diferentes períodos e o número de nascimentos por 1.000 habitantes durante cada um desses períodos. A estimativa, no entanto, não depende do número de mortes em qualquer período de tempo. (grifo nosso)

Obviamente, o cálculo também depende da "semente de população inicial", bem como a data inicial assumida para o início da integração. De acordo com Kaneda & Haub:

Determinar quando a humanidade realmente surgiu não é simples. Acredita-se que os hominídeos mais antigos tenham surgido já em 7 milhões de anos a.C. As primeiras espécies do gênero Homo apareceram por volta de 2 milhões a 1,5 milhão a.C. As evidências atuais apoiam o aparecimento do Homo sapiens moderno por volta de 190.000 a.C. O Homo sapiens moderno originou-se na África, embora a localização exata seja debatida há muito tempo. Pensa-se que diversos grupos viveram em diferentes locais de África durante os primeiros dois terços da história humana.

De forma sumária, a população mundial até os últimos séculos sempre cresceu, acredita-se, a uma taxa baixíssima. Em 1. d. C ela atingiu a cifra de 300 milhões de indivíduos (pouco mais do que a população presente do Indonésia). Por volta de 1800 (d. C.) ela atinge 1 bilhão de pessoas e chega em nossa época com 8 bilhões. 

O cálculo da "população dos que já viveram" integra a taxa de natalidade observada ao longo do tempo. O número resultante é admirável, já que a população de crianças era grande, pois supõe-se que a taxa de natalidade na pré-história e antiguidade era elevada. Essa taxa era da ordem de 80 por mil habitantes (!) contra 17 por mil habitantes hoje em dia (ver https://www.macrotrends.net/countries/WLD/world/birth-rate). 

A taxa efetiva de crescimento - de onde se tira a população total "na data" - era baixa, pois a mortalidade era igualmente elevada. Morria-se muito frequentemente até o início da idade fértil, mas nascia-se a uma taxa um pouco maior, logo a população dos que atingiram essa idade fértil e conseguiam criar seus filhos era pequena. 

Dito isso, para resumir, a Fig. 1 ilustra o resultado gráfico do estudo de Kaneda.

Fig. 1 Crescimento populacional integrado no tempo até 2050 d. C. em duas versões segundo [2]: a curva azul é a população "encarnada por certo período" ("presente") na Terra (próxima a 8 bilhões de indivíduos em 2023), enquanto a de cor laranja integra os que já viveram desde então (os que nasceram).

Segundo [2] entre 190 mil a. C. e 50 mil a. C. a população dos que já tinham vivido na Terra equivalia à população presente da Terra, cerca de 7,8 bilhões de indivíduos. 

Em 1. a. C., essa população total "já vivida" atingiria o valor de 55 bilhões. 

Em 2022, a população integral dos que já viveram chegou a 117 bilhões de pessoas. 

Em 2050, Kaneda estima que chegaremos a 120 bilhões de pessoas que já viveram.

Conclusão

O que isso significa? 

Se calcularmos a razão 177 bilhões para 7,9 bilhões em 2022 (ver Tabela 1 do trabalho [2]) estimamos de forma muito grosseira o número possível de existências que qualquer pessoa presentemente encarnada na Terra já poderia ter vivido:  esse número é da ordem de 14,8 ou aproximadamente 15. 

Insistimos na simplicidade desse cálculo cuja conclusão se baseia no estudo demográfico de Kaneda & Haub. Esse é o número médio grosseiramente falando que qualquer pessoa encarnada presentemente poderia ter vivido na Terra considerando que todos os desencarnados presentes nunca aqui viveram (o que claramente não é razoável). 

Evidentemente, também não se pode tratar como lineares as distribuições de datas de reencarnações e, portanto, "tempos de erraticidade", sendo esperado que essa frequência seja maior quanto mais no presente elas ocorreram (mas isso são detalhes para um outro texto ou, quiçá trabalho mais detalhado).

Obviamente,  as condições de existência no passado não permitiam uma existência longeva. Meninas não atingiam a idade fértil e, muito menos, tinham condição de criar seus filhos até que esses atingissem essa mesma idade. O que interessa, porém, para o Espírito imortal é ter a chance, mesmo que breve, de uma existência como encarnado na Terra. 

Portanto, não parecem razoáveis algumas conclusões recentes de confrades espíritas, de que a maior parte da população presente vive sua primeira existência na Terra. Isso é concluído,  p. ex., em [3], onde o autor declara:

Este cenário portanto fortalece a tese de que vivemos num momento singular da história humana em que muitos Espíritos que não tiveram (ainda) oportunidades num largo período de tempo voltaram a reencarnar recentemente.  

Em um vídeo divertido no canal "Paranormal Cortes" [4], Laércio Fonseca afirma "categoriacamete" que "7 bilhões de Espíritos que estão nesse planeta estão na sua primeira encarnação". Ainda segundo Fonseca, eles foram trazidos para cá por "tecnologia alienígena avançadíssima" de outros mundos. 

Isso é possível, porém, há que se estudar com maior cuidado a evolução populacional para se ter uma imagem mais precisa das implicações para a dinâmica da reencarnação gerada pela demografia. 

Referências

[1] A. Xavier (2012). Uma Abordagem Estatística para Calcular o Tempo Médio entre Encarnações Sucessivas, O Espiritismo nas Ciências Contemporâneas, J. R. Sampaio e M. A. Milani Filho (editores), CCDPE-ECM.

[2] T. Kaneda e C. Haub (2022). How Many People Have Ever Lived on Earth? Link: https://www.prb.org/articles/how-many-people-have-ever-lived-on-earth/ (acesso em dezembro de 2023)

[3] A. C. Gonçalves (2019). Aspecto Demográficos da Reencarnação dos Espíritos. Jornal de Estudos Espíritas 7, 010206.

[4] Canal Paranormal Cortes. (2023) Você sabe mesmo sobre Reencarnação? . https://www.youtube.com/watch?v=bVc7KHYd51k (acesso dezembro de 2023)


7 de maio de 2023

Diferença entre mediunidade e obsessão

A visão no poço dos mártires por G. Henry Boughton (1833-1905)

Uma questão que pode surgir nos estudos de Espiritismo é sobre a semelhança entre mediunidade e obsessão. Afinal, não são ambas resultado da ação dos Espíritos ? Os conceitos não seriam baseados em um mesmo mecanismo mais fundamental? Não é a mediunidade um estado patológico da mente sobre o qual a obsessão também se explica? Tais questões merecem meditação mais profunda como objetivo de se formular respostas.

Especialistas no assunto reconhecem as dificuldades nesses conceitos. Em seu livro Mediunidade: um ensaio clínico [1], o Dr. Nubor Facure pondera (p. 13):

Doença é uma perturbação no bem-estar físico, psíquico, social e espiritual do indivíduo. Sendo assim, pode-se, como máximo de cuidado ético e respeito ao médium, considerar que certas manifestações clínicas da mediunidade podem ser consideradas como "doença", especialmente naqueles momentos em que sua presença perturba o indivíduo na sua homeostase física e psíquica.

É um ponto de vista que reflete a visão médica: doença é tudo aquilo que pode "perturbar o indivíduo em sua homeostase física e psíquica". 

Entretanto, pode-se argumentar que essa definição leva a se considerar como doença qualquer coisa que perturbe um índivíduo como causa. Assim, alguém abalado em sua saúde com excesso de trabalho, por exemplo, poderia acreditar que trabalho é doença. Portanto, as dificuldades em se lidar com a mediunidade nas suas fases iniciais podem perturbar o indivíduo, sem que isso implique em considerá-la como doença em si.

Segundo Kardec

A palavra "médium" tem uma acepção clara segundo Kardec [2] (Vocabulário Espírita):

MÉDIUM. (do latim, medium, meio, intermediário). Pessoa que pode servir de intermediário entre os Espíritos e os homens.

E a mediunidade é a faculdade dos médiuns. Quanto à obsessão, ela está definida, p. ex., em várias partes das obras de Kardec. Por exemplo em [1], Parágrafo 237 (Capítulo 23, "Da Obsessão")

...a obsessão, isto é, o domínio que alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas. 

Também encontramos definições semelhantes com, p. ex., no Parágrafo 70 (Capítulo 2,  "Escolhos da mediunidade"):

Um dos maiores escolhos da mediunidade é a obsessão, isto é, o domínio que certos Espíritos podem exercer sobre os médiuns, impondo-se-lhes sob nomes apócrifos e impedindo que se comuniquem com outros Espíritos.

Observamos que a interferência entre os dois fenômenos já transparecia a Kardec que estudou a obsessão como uma perturbação ao fenômeno mediúnico.

É importante considerar que a mediunidade se caracteriza como um processo de comunicação. No fenômeno obsessivo (no contexto mediúnico), seu objetivo não é simplesmente comunicar algo, mas agir sobre o médium de maneira a prejudicar a ele e a todos os que dele se servem. Na obsessão, o canal (não só o médium, mas também a linguagem) se transforma em um instrumento para realização de atos em prejuízo ao círculo mediúnico.

Obsessão fora da mediunidade na acepção restrita.

Entretanto, a obsessão também age sobre pessoas que não podemos considerar, em tese, "médiuns". Desde a mais sutil fascinação, até os últimos graus de possessão (conforme as definições que podemos encontrar em [1]), o sujeito obsediado não está na posse completa de suas faculdades cognitivas. Poderíamos caracterizar esse estado de coisas como um fenômeno mediúnico?

Em parte a confusão se deve a distinção entre possíveis significados dados à palavra mediunidade conforme podemos ler em [3] (grifos nossos):

Quando analisamos um texto ou um discurso onde o termo médium aparece, é importante reconhecer em qual desses sentidos está sendo empregado, a fim de se evitarem mal-entendidos e discussões sem fundamento. Assim, por exemplo, a afirmação feita no parágrafo 159 de O Livro dos Médiuns de que “todos [os homens] são quase médiuns” deverá ser entendida apenas na acepção ampla do termo, pois sabemos, pela questão 459 de O Livro dos Espíritos, que todos somos passíveis de receber a influência dos Espíritos, ainda que sob a forma sutil de intuição. Incorreremos em grave equívoco se concluirmos daí que todos somos mais ou menos médiuns no sentido restrito e usual da palavra, ou seja, se julgarmos que todos podemos produzir manifestações ostensivas, tais como a psicofonia, a psicografia, os efeitos físicos etc.

Dessa forma, a existência de possível generalização semântica do termo mediunidade (a acepção ampla) pode levar a conclusões precipitadas se misturada à concepção mais restrita dada acima por Kardec.

Entretanto, essa distinção no nível da linguagem não resolve o problema que nos preocupa aqui. Ele se liga à provável origem comum que ambos os efeitos (mediunidade e obsessão) podem ter.  É por essa razão que o Dr. Nubor Facure pondera [1] (p. 14, grifos nossos):

As doenças mentais são fragilidades a alma e, por isso, facilitadoras da atuação compartilhada de Espíritos, e escancaram as portas para a obsessão. Esses Espíritos são irmãos nossos comprometidos com a ignorância, quase sempre perturbadores, querelentes e exigents de direitos que cobram do paciente perturbado mentalmente. Esse quadro, extremamente comum, constitui uma associação clínica simbiótica de muita gravidade. Acredito que na esquizofrenia, na bipolaridade e nas paranoias diversas, ocorre uma frequente troca ambivalente entre o orgânico e o espiritual. A associação entre a doença mental e uma perturbação espiritual é, a meu ver, a regra na psicopatologia humana.

No fenômeno obsessivo puro ocorre assim uma simbiose entre os dois mundos que correm paralelos. Nesse fenômeno, não é objetivo principal a comunicação, mas uma influência nociva sobre o Espírito do doente. Uma explicação mais completa sobre os paralelos entre obsessão e mediunidade passa necessariamente por uma teoria neurológica da mediunidade. Algumas sugestões interessantes são dadas por N. Facure na obra que aqui citamos.

Fig. 1 Algumas áreas do cérebro. Segundo o Dr. N. Facure, há uma relação íntima entre o tipo de mediunidade e a área do cérebro do médium provavelmente responsável por sua intermediação. Imagem: Wikipedia.

De forma muito sucinta, na proposta de Facure, existe uma grande dependência do fenômeno mediúnico - principalmente se de efeito intelectual - com o cérebro. Essa dependência é tão grande a ponto de ser talvez possível mapear tipos de mediundidade conforme áreas no cérebro especializadas pela manfestação da consciência. Por exemplo, no chamado "lóbulo frontal" (Fig. 1), vias neurais por onde trafegam as informações destinadas às funções superiores da cognição, a incidência da mediunidade é responsável por fenômenos comunicativos mais elevados (psicografia, psicofonia etc) [4]:

Pelo exposto, podemos compreender que fenômenos como a psicografia, a vidência, a audiência e a fala mediúnica, devem implicar uma participação do córtex do médium já que aqui se situam áreas para a escrita, a visão, a audição e a fala.

Em outras regiões do cérebro - onde estão os circuitos ligados às manifestações mais primitivas e ligadas às sensações - eventual incidência da faculdade pode levar a outros tipos de fenômenos. Por exemplo, o médium sentir as mesmas sensações do Espírito que dele se aproxima. É o que descreve N. Facure com relação ao Tálamo, uma estrutura localizada no chamado "diencéfalo", uma estrutura localizada na base do cérebro [4]:

É possível que muitas das sensações somáticas referidas pelos médiuns, que dizem perceber a aproximação de entidades espirituais, como se estes lhes estivessem tocando o corpo, seja efeito de estímulos talâmicos.

Nesse caso, pela ação do córtex do médium os estímulos espirituais podem ser facilitados ou inibidos pela aceitação ou pela desatenção do médium, bem como por efeito de estados emocionais não disciplinados pelo médium.

Podemos especular que, por não terem carácter comunicativo, tais vias não conscientes podem se manifestar como fenômenos obsessivos. 

Para que o leitor possa fazer uma ideia mais justa do impacto e relevância dessa teoria, consideremos, por exemplo, o que a ciência descreve com as áreas do cérebro responsáveis pela sexualidade [5]:

O comportamento sexual é regulado por estruturas subcorticais, como o hipotálamo, tronco cerebral e medula espinhal, e várias áreas cerebrais corticais que atuam como uma orquestra para ajustar com precisão esse comportamento primitivo, complexo e versátil. No nível central, os sistemas dopaminérgicos e serotoninérgicos parecem desempenhar um papel significativo em vários fatores da resposta sexual, embora os sistemas adrenérgicos, colinérgicos e outros transmissores de neuropeptídeos também possam contribuir.

Agora, imaginemos que tais circuitos sejam em parte afetados pela mediunidade em certo grau, a ponto de se tornar um fenômeno obsessivo. Se esse é o caso, quantas pessoas no mundo, portadoras de distúrbios sexuais ainda pouco compreendidos (citamos, por exemplo, a Pedofilia mas poderíamos falar em inúmeras parafilias) não poderiam estar de fato sob influência obsessiva ? Quantas, consideradas incuráveis, não poderiam se beneficiar de um tratamento que considerasse os aspectos espirituais envolvidos? 

O assunto assim é de imensa importância para a Humanidade. 

Referências

[1] N. Facure (2014). Mediunidade, um ensaio clínico. Ed. Allan Kardec. Campinas, SP.

[2] A. Kardec (1944).O Livro dos Médiuns. 58a Edição. Ed. FEB. Tradução Guillon Ribeiro.

[3] S.S. Chibeni e C. S. Chibeni. Estudo sobre mediunidade. Reformador de agosto de 1997, pp. 240-43 e 253-55. Federação Espírita Brasileira. Uma versão acessível deste trabalho pode ser lido em: 

[4] N. Facure. Neurofisiologia da mediunidade. Link:

[5] S. Calabrò et al (2019). Neuroanatomy and function of human sexual behavior: A neglected or unknown issue?. Brain and Behavior, v. 9, n. 12, p. e01389. Link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/brb3.1389 


9 de abril de 2023

Considerações espíritas sobre a sexualidade

Estudo de Dante segurando a mão de Amor. Dante Gabriel Rossetti  (1828–1882)  

A sexualidade humana é um importante manifestação do ser. Enquanto participa da matéria, o Espírito está subordinado às disposições do sexo como, por exemplo, às diferenças entre as formas masculina e feminina. Não restam dúvidas de que o corpo exerce uma influência decisiva sobre as ações da alma nessas questões, porém, não as determina univocamente.

Quantos dramas e dores são resultado das consequências adversas da sexualidade! Porém, quantos desses dramas se originaram também da cultura equivocada de uma época que é cultivada como regra de normalidade?

O assunto é complexo pois relaciona de maneira intricada questões de natureza física, cultural (ou social) e espiritual ainda pouco explorados no movimento espírita. Sobram discussões acaloradas sobre a origem de certos comportamentos sexuais, com desdobramentos e orientações relevantes de interesse público. 

Em uma série de posts a partir deste, apresentaremos algumas reflexões, sem a pretensão a qualquer status de verdade absoluta. 

Sexo nos Espíritos

Não é possível utilizar exclusivamente as obras de Kardec para se analisar de forma ampla, do ponto de vista espírita, as questões de sexualidade. Isso porque, no Século XIX, tais assuntos não foram tratados e nem poderiam ser tratados com a mesma liberdade que o Século XXI envolveu as questões ligadas ao sexo. Além disso, importantes conceitos biológicos ainda não eram conhecidos na época da Codificação. Considerando questões de fundamento, porém, é suficiente iniciar nossa discussão, p. ex., com a Questão 200 de O Livro dos Espíritos (LE) [1]:

200. Têm sexos os Espíritos?

“Não como o entendeis, pois que os sexos dependem do organismo. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na semelhança dos sentimentos.”

Por óbvio, tendo em vista a "Escala Espírita" (LE, Cap. I, Parágrafo 100), não é uma regra geral que, para todos os Espíritos, "amor e simpatia" existam de forma generalizada. Há que se levar em conta o progresso feito pela alma. Portanto, a resposta dada é uma consideração de caráter geral sujeita a detalhamentos futuros, sem entretanto apresentar uma negativa absoluta (1) considerando o início da resposta: "Não como o entendeis" (Non point comme vous l'entendez...). 

A grande novidade trazida pelos Espíritos na Codificação foi a informação de que "são os mesmos os Espíritos que animam os homens e as mulheres" (LE Questão 201, ce sont les mêmes Esprits qui animent les hommes et les femmes [1]). Ou seja, uma vez que o princípio inteligente é independente da matéria, não é um dos seus atributos a diferenciação sexual. Essa diferença nasceu na matéria com veremos. Tal princípio tem importantes consequências. Em uma versão mais justa da sociedade, homens e mulheres gozariam de idênticos direitos. Portanto, não foi por aderência a causas de igualdade de gênero, incipientes no Século XIX, que o movimento espírita nascente advogou essa igualdade, mas porque ela é um corolário da natureza assexual do espírito.  

Com relação à igualdade, algumas  pessoas podem se inconformar com a resposta à Questão 822(a) do LE "dos direitos, sim; das funções, não" (des droits, oui; des fonctions, non). Entretanto, é preciso se lembrar que, por volta de 1850, a economia no mundo não se baseava em formas de produção amplamente mecanizada (não existia sequer energia elétrica!) e os trabalhos "mais rudes" (LE, Questão 819) se destinavam naturalmente aos mais fortes fisicamente. Hoje, com máquinas e computadores a desempenharem funções mais pesadas e complexas, não há mais o que se falar sobre diferenças de funções entre homens e mulheres. O fundamento disso está na igual "inteligência e capacidade de progredir" (LE, Questão 817) que ambos possuem em igual teor. 

Sexualidade nos Espíritos

É um fato derivado de milhares de descrições de aparições de Espíritos (por intermédio de médiuns especiais) que eles em sua maioria se manifestam seja como homens ou como mulheres. A aparência externa dos Espíritos é uma expressão de sua vontade, o que se aplica, inclusive, ao tipo de indumentária com que se apresentam. 

Assim, do fato de não se atribuir aos Espíritos o mesmo valor biológico para o sexo, isso não significa que eles não tenham sexualidade.  Por esse termo podemos entender um conjunto de pensamentos, sentimentos, atrações, repulsões, aparências e maneirismos relacionados ao sexo que são manifestações do Espírito estando ele ou não sob influência da matéria. 

Entretanto, enquanto encarnado, ele sofre forte influência da matéria, que faz com que sua sexualidade oscile no tempo. Separado do corpo (como desencarnados) consideramos que os Espiritos têm uma "sexualidade residual" que se torna um traço mais ou menos marcante de sua personalidade integral conforme seu grau de adiantamento.

Essa influência forte da matéria sobre o espírito em matéria de sexo existe porque ele foi "inventado" ao longo do processo de evolução como um mecanismo eficiente de perpetuação das espécies. Tal informação precisa ser desenvolvida e incorporada a uma descrição espírita mais moderna do assunto. Embora sem referência ao instinto sexual, essa influência da matéria é prevista no LE. Para ver isso, consideremos a resposta da Questão 605(a) [1] (grifos nossos): 

De modo que, além de suas próprias imperfeições de que cumpre ao Espírito despojar-se, tem ainda o homem que lutar contra a influência da matéria?

Sim; quanto mais inferior é o Espírito, tanto mais apertados são os laços que o ligam à matéria. Não o vedes? O homem não tem duas almas; a alma é sempre única em cada ser. São distintas uma da outra a alma do animal e a do homem, a tal ponto que a de um não pode animar o corpo criado para o outro. Mas, conquanto não tenha alma animal, que, por suas paixões, o nivele aos animais, o homem tem o corpo que, às vezes, o rebaixa até ao nível deles, visto que o corpo é um ser dotado de vitalidade e de instintos, porém ininteligentes estes e restritos ao cuidado que a sua conservação requer.

A biologia moderna acrescentou uma grande quantidade de detalhes sobre essa influência que não mais podemos desprezar. 

Origem do sexo 

É preciso se lembrar que, por meio da revelação científica da evolução natural e da genética (que não eram conhecidas na época em que o LE foi publicado), sabemos hoje que os organismos precisam aumentar sua variabilidade genética para sobreviverem (2). Esse material genético é representado pela molécula de DNA (ácido desoxiribonucleico) que traz em si informação sobre como "montar" um organismo vivo por meio de processos complexos de síntese de proteínas e outras substâncias. 

A inserção de material genético em outra célula ocorre de diversas formas e tem como objetivo aumentar essa biodiversidade. Dessa forma, organismos de uma determinada espécie conseguem sobreviver frente a mudanças do ambiente (basta ver como operam os vírus). Uma das maneiras de fazer isso é por meio do sexo que nada mais é do que a inserção de material genético de uma célula em outra de uma mesma espécie [2] observando determinadas regras que permitem o desenvolvimento de uma progênie (descendência) viável, ou seja, que seja capaz de se reproduzir. 

Enquanto permaneciam no seio tépido e mais ou menos estável de muitos ambientes primitivos, células procariontes (que não têm núcleo distinto) se reproduziam de forma assexuada, por meio da divisão celular. Crê-se que, por causa de mudanças no ambiente, tais células primitivas "descobriram por acaso" o sexo há vários bilhões de anos. Essa descoberta é um dos mistérios na biologia e um dos vários "elos perdidos" na árvore de evolução dos seres primitivos. 

Fig. 2 Árvore filogenética moderna contendo os três grandes troncos primitivos de seeres: as bactérias (bacteria), as arqueias (archaea) e os organismos eucariontes (eukaryota). 1 e 2 representam organismos hipotéticos relacionados à origem da vida (1) e do sexo (2). Segundo [2], os procariontes modernos também se envolvem em reprodução sexuada.

A Fig. 2 representa uma versão muito simplificada da "árvore filogenética" contendo os três grandes troncos de seres a partir de um elo inicial (denominado 1) que supostamente deu origem à vida na Terra. Cada "nuvem" representa um arranjo de milhares de grupos e subgrupos de espécies diferentes. Os organismos eucariontes (que contém um núcleo celular distinto, de "κάρυον" para caroço ou núcleo) formaram a base unicelular para organismos mais complexos (multicelulares) que resultaram em plantas, animais e fungos (mas não apenas esses!). De alguma forma, um organismo primitivo unicelular procarionte desconhecido desenvolveu o sexo há bilhões de anos (assinalado por 2 na Fig. 2). Esse traço se perpetuou em todas as espécies desde então, por ser altamente eficiente e benéfico para as espécies. 

A existência de 1 e 2 é admitida cientificamente por causa de características comuns entre inumeráveis espécies de seres muito diferentes entre si, o que indica serem eles descendentes de um "elo" primitivo comum. Por exemplo, segundo [2]:
O ancestral comum de toda a vida moderna, tronco principal do diagrama, é uma entidade hipotética deduzida do fato de que todas as formas de vida moderna compartilham muitas características complexas - por exemplo, genomas baseados em DNA, código genético em tripleto, síntese de proteínas baseadas em ribosomos, caminhos metabólicos - e, portanto, devem ter evoluído de um ancestral que também possuía tais características complexas.  
O sexo é visto modernamente como um característica que se perpetuou em diversos organismos unicelulares (inclusive bactérias), mas que atingiu seu ápice com o desenvolvimento de células especializadas na reprodução (os chamados "gametas").  Organismos multicelulares podem ser considerados "colônias de células" que aproveitam as vantagens da união via cooperação-especialização. Parte do organismo multicelular (o chamado "soma") é especilizado em funções de captação de energia, metabolismo, proteção etc. Outra parte, o "germe" se especializou em reprodução. O soma se justifica até o momento em que o germe consegue se reproduizir e gerar  descendentes. Do ponto de vista biológico, assim, o fato mais relevante para os seres é sua reprodução, posto que isso garante a continuidade da espécie a que pertencem.

 André Luiz: a origem do sexo e dos espíritos?

Algumas dessas informações que formam a imagem moderna da evolução do sexo foram sugeridas e ampliadas em alguns ditados mediúnicos mais recentes fora da conjunto de obras da Codificação. Embora o caráter resumido, elas representam claramente um salto em relação ao estabelecido em diversas obras de Kardec cujo contexto científico não comportava ainda a evolução das espécies

Um desses ditados é Evolução em dois mundos de André Luiz [3], um livro publiado em 1958 (aproximadamente 100 anos depois do LE) e que foi psicografado em capítulos intercalados pelos médiuns F. C. Xavier e W. Vieira. Não obstante terem sido psicografados individualmente a mais de 400 km de distância, os textos produzidos por esses médiuns se combinam em uma "nova gênese" para o Espiritismo.

A evolução do sexo é tratada, por exemplo, no Cap. VI. Com sua linguagem peculiar, o autor espiritual descreve desta forma o pararecimento do sexo (2, p. 48):
Dobadas longas faixas de tempo, em que bactérias e células são  experimentadas em reprodução agâmica, eis que determinado grupo apresenta no imo da própria constituição qualidades magnéticas positivas e negativas que lhes são desfechadas pelos Orientadores Espirituais encarregados do progresso devido ao Planeta. 
Pressente-­se a evolução animal em vésperas de nascer... 
A "reprodução agâmica" é a divisão celular simples, que é a base da reprodução de muitos organismos primitivos procariontes ("bactérias e células"). Com vimos, da origem da vida até a invenção do sexo passaram-se "longas faixas de tempo". Acredita-se que os primeiros organismos vivos surgiram entre 3-3,5 bilhões e anos, enquanto que  os primeiros organismo que se reproduziram sexualmente surgiram 1,3 bilhões de anos antes dos primeiros animais mais evoluídos [4]. 

A base da explicação de A. Luiz é que a evolução dos seres e o processo de especiação não ocorreu de forma aleatória e cega, mas foi guiado, manipulado e modificado - respeitando as leis físicas e o tempo - por Espíritos superiores em processos inacessíveis aos cientistas humanos. O que a ciência vê como  mutações randômicas de origem desconhecida ou eventos cataclísmicos ambientais são, na verdade, modificações aparentemente aleatórias promovidas por tais Espíritos. Esses são descritos como "orientadores espirituais" responsáveis pela evolução na Terra.  É o que o autor descreve em [3], Seção "Concentrações fluido-magnéticas" (2, p. 50):
Eras imensas transcorreram; e esse princípio inteligente, destinado a crescer  para a glória da vida, em dois planos distintos de experiência, quando se mostra ativado em constituição mais complexa, recebe desses mesmos Arquitetos da Sabedoria Divina os dons da reprodução mais complexa...
Segundo A. Luiz, o processo de evolução do lado material gerou organismos diferenciados e, do lado espiritual, levou ao desenvolvimento do princípio inteligente ou do espírito - note o "e" minúsculo. Portanto, esse princípio espiritual colhe, a partir de sua associação com a matéria, características que também podem ser transferidas entre gerações ou mesmo espécies em um processo de "simbiose" espírito-matéria. 

Uma dessas características é a diferenciação "positiva" e "negativa" descrita no trecho acima que representa o aparecimento do binômo macho-fêmea ou dos gêneros sexuais. Do ponto de vista material, o sexo necessitou da diferenciação entre células do tipo "sêmen" e do tipo "óvulo", que são conhecidas como células reprodutivas especiais do macho e da fêmea, respectivamente. Expresso de outra forma, esse binômio representa a dicotomia "doador/receptor" de material genético. Essa diferenciação é consequência da especialização celular nos organismos multicelulares (os gametas), embora ela também exista de forma especial entre organismos unicelulares modernos [2].

No texto de Evolução em Dois Mundos, André Luiz assim confirma:
  • A imagem científica moderna da evolução a partir de elos primitivos comuns, 
  • O aparecimento e ramificação das espécies a partir da seleção de características vantajosas, 
  • O surgimento do sexo no início do desenvolvimento de seres unicelulares após "eras imensas",  
  • A origem comum dos homens e dos seres vivos que são "irmãos de jornada evolutiva" (3).
Além disso, ele lança uma proposta audaciosa para detalhar a origem do elemento espiritual em íntima associação com as formas vivas, desde as mais primitivas (4). A influência superior guiando a evolução é descrita como "experiências de seleção natural-espiritual" que não se passaram exclusivamente na matéria. A nós é possível especular que parte dessas características comuns (e que levam a ciência a acreditar em um único "ancestral primitivo") também se confundem com características que foram aprendidas pelo próprio elemento espiritual. Obviamente, o sexo se encontra entre tais características que, nos espíritos mais desenvolvidos, se manifestam como a citada sexualidade residual sujeita à vontade de sua personalidade integral.

Talvez algumas dessas sugestões poderão ser verificadas nos desenvolvimentos futuros das teorias  de especiação e origem da vida. Certamente, o princípio inteligente está por trás do comportamento inteligente observado nas estratégias de sobrevivência de muitas espécies superiores. Por associar conceitos modernos da biologia com a evolução do princípio inteligente, a proposta de A. Luiz parece ser a única existente dentre as explicações espiritualistas que desenvolve alguns detalhes relevantes para entender questões ligadas à sexualidade e ao comportamento sexual.

Continua no próximo post.

Referências

Referências como disponíveis em abril-maio de 2023.

[1] Kardec (1860). A. O Livro dos Espíritos. 2a Edição segundo a versão original em Francês disponível aqui: https://www.cesakparis.fr/wp-content/uploads/2010/02/allankardec-esprits.pdf

[2] Goodenough, U. (2007). The emergence of sex. Zygon, 42(4), 857-872. Ver link: https://openscholarship.wustl.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1098&context=bio_facpubs 

[3] A. Luiz (1958). Evolução em dois mundos. 4a Edição. FEB (Federação Espírita Brasileira).

[4] Otto, S. (2008). Sexual Reproduction and the Evolution of Sex. Nature Education 1(1):182. Ver link: https://www.zoology.ubc.ca/~otto/Reprints/Otto2008.pdf

Comentários

(1) A pergunta da Questão 200 do LE é um dos mais interessantes e relevantes questionamentos do LE. Com isso Kardec elimina qualquer possibilidade futura de que o "sexo dos Espíritos" se tornasse tão inútil como a do "sexo dos anjos" cuja expressão é sinônimo de debate irrelevante.

(2) De acordo com os princípios da evolução natural, as espécies precisam gerar organismos com algum tipo de diferenciação para que possam se adaptar a mudanças e variações sempre presentes na Natureza. O princípio da "sobrevivência dos mais aptos" é um dos mais relevantes fundamentos da evolução das formas na matéria.

(3) Essa informação é de grande relevâncias para distinguir a maneira como o Espiritismo considera as questões sexuais de outras doutrinas religiosas. Sendo a Humanidade um subproduto da evolução natural dos seres (a inteligência do homem tem origem no desenvolvimento da inteligência dos animais), não é o homem um "ser a parte" ou "especialmente criado por Deus" para o qual os animais são apenas "outras criaturas" para servir ao homem. É nos animais que vamos encontar muitas explicações para o comportamento humano ainda ligado ao instinto onde o sexo é um dos principais indutores.

(4) Com comentário final ressaltamos que, segundo o LE, a origem dos Espíritos é considerada um mistério (ver resposta à Questão 81). Entretanto, na época de lançamento do LE, não havia uma ideia clara sobre o aparecimento dos seres vivos (ver Questão 44 com uma descrição sobre a origem dos seres vivos na Terra que nos lembra das teorias de geração espontânea), estando muitas respostas dadas dependentes do vitalismo característico da época de Kardec. Porém, índícios de elementos comuns entre os homens e os animais pode ser lidos, por exemplo, na resposta à Questão 606 e em outras partes do LE. O assunto é interessante para estudos mais amplos sobre ideias passadas pelos Espíritos a favor da evolução do elo de ligação da Humanidade com os seres vivos. Tais estudos entretanto desviam do assunto principal deste texto.