"Essas subversões, porém, são frequentemente necessárias para que mais pronto se dê o advento de uma melhor ordem de coisas e para que se realize em alguns anos o que teria exigido muitos séculos". ([1], Resposta à Questão # 737)
Considerações espíritas
Para quem considera a vida desde a perspectiva da vida maior do Espírito, o momento da pandemia permite inúmeras reflexões em torno das questões 737 e 741 do Cap. VI, 3a Parte de "O Livro dos Espíritos". Da leitura atenta dessa parte destacamos algumas passagens:
Ora, conforme temos dito, a vida do corpo bem pouca coisa é.
Um século no vosso mundo não passa de um relâmpago na eternidade. Logo, nada são os sofrimentos de alguns dias ou de alguns meses, de que tanto vos queixais.
Os Espíritos, que preexistem e sobrevivem a tudo, formam o mundo real. Esses os filhos de Deus e o objeto de toda a sua solicitude. Os corpos são meros disfarces com que eles aparecem no mundo. [1, trechos da resposta à Questão #738a]
Quando a resposta afirma que "a vida do corpo bem pouca coisa é" devemos entender o contexto da pergunta. No caso, a vida humana é bem pouca coisa desde o ponto de vista daquilo que homem costuma pensar de si como encarnado, o que em uma afirmação anterior está representado por "o homem tudo refere ao seu corpo". É óbvio que a vida humana é relevante como oportunidade de aprimoramento do Espírito. Cessa essa importância, porém, quando o homem, orgulhoso, pensa que ela é a única coisa que existe. Como o objetivo último é esse aprimoramento, a vida pode chegar a um fim antecipado se sua continuação representar um estorvo tanto para o progresso da alma encarnada como para os grupos humanos (família, coletividade, etc) que são obrigados a suportá-la.
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"O anjo da morte às portas de Roma". (Jules-Élie Delaunay. Fonte: Wikipedia) |
Mas, não há como antecipar em que momento a continuação da existência humana representa um problema para o progresso da alma. Apenas a Providência Divina tem essa informação. Da mesma forma, nenhum de nós tem condição de sequer imaginar qual teria sido a sucessão de coisas ou fatos caso um flagelo destruidor como uma pandemia de longo curso não tivesse ocorrido. Não há como afirmar que a vida teria sido mais bela: no balanço geral dos ganhos, conta mais o avanço da alma humana em aspectos imortais que não existem para a mente imediatista ou demasiadamente ligada à matéria.
Assim, segundo os Espíritos, que ditaram as respostas para A. Kardec, o objetivo maior dos flagelos destruidores é:
...fazê-los progredir mais depressa. Já não dissemos ser a destruição uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos, que, a cada nova existência, sobem um degrau na escala do aperfeiçoamento? [1, início da resposta à Questão #737]
Esse progresso, entretanto, não é imediato. Ele se dá tanto do ponto de vista dos objetivos da alma como, possivelmente, do ponto de vista material. Conforme a resposta da Questão #739:
Mas, o bem que deles resulta só as gerações vindouras o experimentam.
Abnegação, inteligência, resignação e paciência
A comparação com "doenças coletivas" também se estende a maneira como eles devem ser encarados no momento em que surgem:
Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo. [1, resposta à Questão 740]
Contudo, entre os males que afligem a Humanidade, alguns há de caráter geral, que estão nos decretos da Providência e dos quais cada indivíduo recebe, mais ou menos, o contragolpe. A esses nada pode o homem opor, a não ser sua submissão à vontade de Deus. Esses mesmos males, entretanto, ele muitas vezes os agrava pela sua negligência.
Como possíveis benefícios futuros do Covid-19, à luz do que vimos aqui, consideramos os seguintes pontos para futuras reflexões:
- Os últimos 20 anos de desenvolvimento da Humanidade foram testemunhos de avanços consideráveis como o advento da internet. No seu início, a internet representou a esperança de uma globalização de costumes e culturas, o intercâmbio de ideias e o compartilhamento de soluções através do globo. Com o tempo, porém, os velhos costumes dominaram as perspectivas e a internet acabou refletindo mais ou menos a segregação própria de cada agrupamento humano. Não representa a pandemia uma oportunidade para novas formas de relacionamento (visando o desenvolvimento científico e cultural) entre os povos, aproveitando esses recursos de comunicação?
- Ela não representa oportunidade de desenvolver soluções para outras doenças contagiosas, não só através de vacinas, mas pelo uso de medidas sanitárias eficientes e de condutas coletivas menos suscetíveis à transmissão de doenças?
- Novas formas de trabalho, com aplicação mais racional de recursos, menos danosos ao meio-ambiente, não parecem emergir de um quadro pós-pandemia?
- Para a administração geral (pública e privada), não representa a pandemia a oportunidade de conduzir aos cargos administrativos aqueles que têm mais competência na condução das respostas que a crise exige?
Referências
[1] A. Kardec, "O Livro dos Espírito". Ed FEB, 71 ed, 1991.
[2] Além da "gripe espanhola" e "peste negra", uma interessante pandemia foi a "peste Antonina", ocorrida entre os anos de 165 e 180. Tratou-se de uma epidemia de Varíola que se originou também na China, segundo relatos e que dizimou milhares de pessoas na Europa. Para saber mais: "A Peste Antonina - Wikipedia" (acesso em julho de 2020).