Durante o
7 ENLIHPE (20/8/2011), tivemos a oportunidade de apresentar o trabalho: "
Uma abordagem estatística para a determinação do tempo de vida entre encarnações sucessivas."
Como se sabe, o Espiritismo introduzido por A. Kardec foi o primeiro movimento espiritualista no ocidente a compreender a importância da reencarnação. Este é o único mecanismo que pode explicar tanto anomalias observadas na personalidade humana com também fornecer uma visão do mundo mais de acordo com os princípios de justiça natural e equidade. Portanto, é importante compreender as consequências da reencarnação não somente para cada um de nós como indivíduos, mas também como um fenômeno social e, principalmente, demográfico. Assumindo a reencarnação como uma das leis da Natureza que é válida para todos os seres humanos, ela certamente tem consequências coletivas que apenas começamos a vislumbrar.
O objetivo do trabalho foi construir um modelo numérico para calcular o intervalo de tempo entre reencarnações sucessivas de uma individualidade humana O trabalho baseou-se nos seguintes princípios:
- Existe uma base de tempo única que pode ser usada para determinar o intervalo de tempo entre duas existências (o que chamamos de 'tempo de erraticidade');
- Existe conservação da 'individualidade', isto é, a personalidade humana sobrevive à morte física e conserva sua consciência (que é, de fato, a fonte dessa personalidade). A consciência é conservada em uma unidade não material (ou incorpórea) chamada 'Espírito' (note a letra maiúscula 'E');
- O Espírito não pode ser 'destruído' (não existe uma 'segunda morte');
- Para cada Espírito está associado um único corpo durante uma encarnação;
- A reencarnação implica na existência de competição entre populações desencarnadas distintas no mundo espiritual (que distinguimos entre uma vizinhança no 'plano físico' e de 'outros planos' ou zonas espirituais distantes da Terra);
- No plano físico (mundo terreno), cada indivíduo nasce de outros dois. Entretanto, no que concerne à origem dos Espíritos, não se conhece o mecanismo de seu nascimento. De fato, a origem dos Espíritos é um mistério. Para todos os efeitos, podemos assumir que existe um reservatório infinito de individualidades desencarnadas no mundo espiritual (desde que o Universo é infinito);
- A existência humana no plano físico é limitada à vida do corpo físico. Não existe um limite para a existência do Espírito (conforme o princípio #3);
Os princípios estabelecidos acima são baseados em questões dadas pelos próprios Espíritos conforme o 'Livro dos Espíritos' (LE). Por exemplo: o princípio #1 está baseado na questão LE#224; o princípio #2 em LE-Q#92 e 150; o princípio #3 em LE-Q#83; o princípio #4 em LE-Q#137; princípio #5 em LE-Q#172 e 173; o princípio #6 em LE-Q#81 e, finalmente, o princípio #7 em LE-Q#68.
No trabalho, fizemos várias predições concernentes à maneira como as populações em ambos os planos físico e espiritual interagem, utilizando um conjunto de assunções adicionais sobre o estado atual da população total. Nós finalmente fizemos alguns cálculos numéricos mostrando que o 'tempo de erraticidade' está oculto na taxa de natalidade da população do plano físico.
O gráfico abaixo mostra a evolução temporal da expectativa de vida no plano físico (esquerda) e o tempo de erraticiadde (direita) em anos para a população brasileira segundo nosso modelo. Ambos intervalos são dados como função do tempo desde 1970 a 2000.

Como tais predições poderiam ser validadas? Se for possível rastrear uma vida anterior para um grupo de indivíduos (uma população, digamos de 100 pessoas), encontrando-se a data de falecimento anterior - o que, de certa forma, pode ser feito conforme demonstrou I. Stevenson (1966) - o tempo de erraticidade poderia ser estatisticamente calculado uma vez que a data de nascimento da vida presente é conhecida. Isso abriria a possibilidade de se testar nossas assunções, o que caracterizaria uma extensão das teorias de dinâmica populacional (só que agora englobando componentes desencarnadas).
Tais resultados mostram a fertilidade heurística dos princípios espíritas, que não somente admitem a sobrevivência da personalidade à morte física, mas também que ela evolui ao longo de muitas vidas no plano físico.
Referências
- Kardec A. (1857). 'O Livro dos Espíritos'. Há muitas edições (inclusive eletrônicas) desta obra;
- Stevenson I. (1966) Twenty Cases Suggestive of Reincarnation. (1966). (Second revised and enlarged edition 1974), University of Virginia Press, ISBN 0813908728.