10 de julho de 2020

Estudo de "O Livro dos Espíritos": flagelos destruidores (Cap. VI)


"Essas subversões, porém, são frequentemente necessárias para que mais pronto se dê o advento de uma melhor ordem de coisas e para que se realize em alguns anos o que teria exigido muitos séculos". ([1], Resposta à Questão # 737)
Flagelos destruidores são ocorrências naturais que provocam a extinção em massa de seres vivos, inclusive agrupamentos humanos. O que caracteriza os flagelos é a intensidade e a velocidade de propagação. A intensidade é medida em termos do total de mortes ou danos causados pelo flagelo. A velocidade é a taxa com que a destruição acontece.  

O início de 2020 foi marcado pelo inusitado aparecimento de uma epidemia local na China que logo se tornou uma pandemia, afetando a maioria dos países. A incidência pandêmica de um vírus chamado "Covid-19", a se manifestar aparentemente como uma gripe comum, é considerada um flagelo, dada a sua velocidade e intensidade de propagação. Do contágio à morte, contam-se algumas semanas, com maior taxa de mortalidade na população de idosos e pessoas que apresentam problemas de saúde pré-existentes. 

Uma geração inteira, que já nasceu conectada através de recursos da internet, foi surpreendida pela pandemia como uma novidade e uma gigantesca ameaça. Entretanto, como flagelo destruidor, a pandemia do Covid-19 é apenas uma das inúmeras pandemias ou epidemias de vastas proporções já vividas pela Humanidade [2]. Assim como surgem, desaparecem deixando atrás de si um rastro de morte e destruição. Para materialistas, essas ocorrências naturais são a prova das forças cegas que podem destruir a Humanidade inteira. Além do impacto econômico, sua maior influência é o pessimismo e a desolação mental que atingem principalmente aqueles que mais descreem na vida futura. O mundo se torna sombrio, e cada minuto confinado é momento de uma vida sem sentido.

Considerações espíritas

Para quem considera a vida desde a perspectiva da vida maior do Espírito, o momento da pandemia permite inúmeras reflexões em torno das questões 737 e 741 do Cap. VI, 3a Parte de "O Livro dos Espíritos". Da leitura atenta dessa parte destacamos algumas passagens:

Ora, conforme temos dito, a vida do corpo bem pouca coisa é.

Um século no vosso mundo não passa de um relâmpago na eternidade. Logo, nada são os sofrimentos de alguns dias ou de alguns meses, de que tanto vos queixais. 

Os Espíritos, que preexistem ae sobrevivem a tudo, formam o mundo real. Esses os filhos de Deus e o objeto de toda a sua solicitude. Os corpos são meros disfarces com que eles aparecem no mundo. [1, trechos da resposta à Questão #738a] 

Quando a resposta afirma que "a vida do corpo bem pouca coisa é" devemos entender o contexto da pergunta. No caso, a vida humana é bem pouca coisa desde o ponto de vista daquilo que homem costuma pensar de si como encarnado, o que em uma afirmação anterior está representado por "o homem tudo refere ao seu corpo". É óbvio que a vida humana é relevante como oportunidade de aprimoramento do Espírito. Cessa essa importância, porém, quando o homem, orgulhoso, pensa que ela é a única coisa que existe. Como o objetivo último é esse aprimoramento, a vida pode chegar a um fim antecipado se sua continuação representar um estorvo tanto para o progresso da alma encarnada como para os grupos humanos (família, coletividade, etc) que são obrigados a suportá-la.

"O anjo da morte às portas de Roma". (Jules-Élie Delaunay. Fonte: Wikipedia)

Mas, não há como antecipar em que momento a continuação da existência humana representa um problema para o progresso da alma. Apenas a Providência Divina tem essa informação. Da mesma forma, nenhum de nós tem condição de sequer imaginar qual teria sido a sucessão de coisas ou fatos caso um flagelo destruidor como uma pandemia de longo curso não tivesse ocorrido. Não há como afirmar que a vida teria sido mais bela: no balanço geral dos ganhos, conta mais o avanço da alma humana em aspectos imortais que não existem para a mente imediatista ou demasiadamente ligada à matéria.

Assim, segundo os Espíritos, que ditaram as respostas para A. Kardec, o objetivo maior dos flagelos destruidores é:

...fazê-los progredir mais depressa. Já não dissemos ser a destruição uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos, que, a cada nova existência, sobem um degrau na escala do aperfeiçoamento? [1, início da resposta à Questão #737]

Esse progresso, entretanto, não é imediato. Ele se dá tanto do ponto de vista dos objetivos da alma como, possivelmente, do ponto de vista material. Conforme a resposta da Questão #739:

Mas, o bem que deles resulta só as gerações vindouras o experimentam.
Quantas gerações para a frente da época de uma pandemia como a do Covid-19 serão beneficiadas? A resposta ignoramos. Assim, flagelos destruidores - o que incluem as epidemias - podem ser vistos também como "resgates coletivos" que afetam o organismo da sociedade com alvos de aprimoramento futuro que permanecem ocultos desde a perspectiva da vida imediata. 

Abnegação, inteligência, resignação e paciência

A comparação com "doenças coletivas" também se estende à maneira como eles devem ser encarados no momento em que surgem:
Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo. [1, resposta à Questão 740]
Essa resposta contém inúmeras lições. Quando os Espíritos afirmam que os flagelos são "ocasião para exercitar a inteligência" querem dizer que o homem deve lançar mão de todos os recursos possíveis para abrandar ou mitigar seus efeitos. Desde o desenvolvimento de vacinas até a adoção de medidas de higienização, planejamento e isolamento protegem, em tese, a coletividade não só da doença em curso, mas de outras futuras. O "exercício da inteligência" significa principalmente o uso sistemático do conhecimento científico que nada mais é do que fonte de progresso material

Chama a atenção a parte final da resposta à Questão 741 (grifo nosso):
Contudo, entre os males que afligem a Humanidade, alguns há de caráter geral, que estão nos decretos da Providência e dos quais cada indivíduo recebe, mais ou menos, o contragolpe. A esses nada pode o homem opor, a não ser sua submissão à vontade de Deus. Esses mesmos males, entretanto, ele muitas vezes os agrava pela sua negligência.
Se o momento exige inteligência e resignação, a negligência desses aspectos pode levar ao agravamento dos males e de suas consequências. A resposta também contém a revelação do caráter de fatalidade ligado aos flagelos, pois estão entre os "decretos da Providência". Contra isso os Espíritos indicam o remédio: o exercício da paciência e da resignação, ao que se deve adicionar a abnegação e a ajuda aos que estão mais expostos às vicissitudes do momento. De fato, toda crise representa uma oportunidade para exercitar essas virtudes da alma que são patrimônios inalienáveis do futuro.

Para futuras reflexões

Como possíveis benefícios futuros do Covid-19, à luz do que vimos aqui, consideramos os seguintes pontos para futuras reflexões:

  • Os últimos 20 anos de desenvolvimento da Humanidade foram testemunhos de avanços consideráveis como o advento da internet. No seu início, a internet representou a esperança de uma globalização de costumes e culturas, o intercâmbio de ideias e o compartilhamento de soluções através do globo. Com o tempo, porém, os velhos costumes dominaram as perspectivas e a internet acabou refletindo mais ou menos a segregação própria de cada agrupamento humano. Não representa a pandemia uma oportunidade para novas formas de relacionamento (visando o desenvolvimento científico e cultural) entre os povos, aproveitando esses recursos de comunicação?
  • Ela não representa oportunidade de desenvolver soluções para outras doenças contagiosas, não só através de vacinas, mas pelo uso de medidas sanitárias eficientes e de condutas coletivas menos suscetíveis à transmissão de doenças?
  • Novas formas de trabalho, com aplicação mais racional de recursos, menos danosos ao meio-ambiente, não parecem emergir de um quadro pós-pandemia? 
  • Para a administração geral (pública e privada), não representa a pandemia a oportunidade de conduzir aos cargos administrativos aqueles que têm mais competência na condução das respostas que a crise exige?  
A explicação para a presente crise, provocado por um flagelo que inibe temporariamente a atividade econômica e a interação social, está nos objetivos da vida futura do homem. Para quem tudo considerada desde a perspectiva da vida imediata, a impressão é de arrefecimento do ânimo e de perda de oportunidades. Porém, a vida humana obedece a um propósito de natureza superior que permanece oculto à maioria.  Desse objetivo a alma encarnada, quando muito, guarda vaga impressão nos recessos do seu inconsciente, na medida necessária para que ela consiga viver e aguardar. 

Por isso, o exercício da abnegação e da paciência, pela conformação às medidas sanitárias necessárias para reduzir o alcance da doença tornam-se imperativos no momento. Em toda crise como essa, também lembramos o inesquecível "Mas quem perseverar até o fim, este será salvo" (Mateus, 24:13) como advertência do Evangelho e que transcende a todas as épocas da Humanidade. 



















Referências

[1] A. Kardec, "O Livro dos Espírito". Ed FEB,  71 ed, 1991. 

[2] Além da "gripe espanhola" e "peste negra", uma interessante pandemia foi a "peste Antonina", ocorrida entre os anos de 165 e 180. Tratou-se de uma epidemia de Varíola que se originou também na China, segundo relatos e que dizimou milhares de pessoas na Europa. Para saber mais: "A Peste Antonina - Wikipedia" (acesso em julho de 2020) 





1 de junho de 2020

A que se deve muito do excesso de desgraças dos últimos tempos (*)

Uma parte de "Cristo carregando a cruz" de
Hieronymus Bosch (1490)


























 
Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha. (Mateus 18:6)

Não nos dirigimos nem aos curiosos nem aos apreciadores de escândalo, mas àqueles que querem seriamente instruir-se. (A. Kardec "O Céu e o Inferno", Capítulo 1, "A passagem").

É difícil hoje em dia não se comover com os dramas, desgraças e análises pessimistas destilados todos os dias por inúmeros meios de informação. Em parte esses resumos diários, excessivamente ruidosos e carregados de infortúnios alheios, revelam um excesso de sensacionalismo, potencializado pelo alcance e rapidez das mídias sociais, dos meios de comunicação digital em um mundo cada vez mais conectado. Nunca foi tão fácil e rápido noticiar. Um verdadeiro exército de jornalistas improvisados bombardeiam todos os dias as pessoas com informações, na sua maioria sem qualquer utilidade prática, mas que servem para definir a pauta do ânimo de cada dia.

Grupos com interesses altamente específicos, indivíduos desqualificados e propagandistas sem escrúpulos têm seus multiplicadores em uma guerra silenciosa, cujo objetivo é captar o máximo interesse do público e atingir grupos e inimigos diversos. O analfabetismo filosófico e a incapacidade de perceber mesmo as mais grosseiras fraudes argumentativas acabam ressoando entre multidões imensas, sedentas de informação, mas cativas de sua própria falta de formação e equilíbrio. 

Em comum os informantes seguem o mais puro materialismo, a ausência completa de discernimento sobre a vida futura. A noção de justiça que transmitem é quase sempre a do aqui agora, a dos ânimos embrutecidos na revolta pelo não cumprimento aparente de uma justiça idealizada, que muda conforme os interesses.  De fato, não faz sentido, entre os que nada creem, exigir justiça: se nada existe para além dessa vida, por que se preocupar? A justiça por eles cobrada é uma convenção transitória em um universo brutal em que os desejos, aspirações e mais nobres intenções humanas desfazem-se lentamente como espuma para cada criatura que morre…  

Diante desse quadro em que o nada é propaganda velada de todos os dias, faz bastante sentido ver se espalharem os crimes, as mais torpes transgressões, as mais incríveis iniquidades e o aumento do suicídio entre os que não conseguem suportar.  É como se estivesse em curso uma gigantesca catástrofe anunciada, em que cada um pensa poder sobreviver, faz o que pode para garantir os seus  direitos, e passa por cima de qualquer um, no salve-se quem puder de cada dia.

Afogados nesse verdadeiro apocalipse de desgraças, nunca foi tão necessário o discernimento - separar o joio da verdade do trigo da ilusão - e o equilíbrio moral - não se deixar abater pela revolta, que cria o estado de desânimo e pode trazer para nossas vidas problemas que são dos outros. Ainda mais porque, muitos dos que clamam por justiça, porque querem ser vistos, pregam o ódio como método. Ora, é bastante óbvio que nada de bom pode resultar de meios que pregam o ódio de forma sistemática, ou que acreditam poder gerar o bem fazendo o mal.

A antítese da combinação mórbida do ódio com o nada é o amor e a certeza da vida futura. Contra essas duas crenças, por que se impõe a dúvida? Porque a certeza da eficácia dessas duas verdades é também um bem que o indivíduo deve conquistar todos os dias, se a ele faltam os recursos internos. Esses recursos são semeados ao longo de sucessivas vidas, razão porque eles se encontram tão desigualmente distribuídos entre as pessoas. Não se trata, portanto, de uma injustiça desde o nascimento. Aqui vemos um sujeito que em nada acredita, que nutre rancor contra seu semelhante ou que segue amargurado, sem ânimo para a vida. Mas eis que, ao seu lado, alguém o suporta bravamente, escorando-se na fé ou em pequenos atos de gratidão, muitas vezes desapercebidos, mas que pouco a pouco surtem efeito.  Esse quadro multiplica-se aos milhões em todas as partes do globo.

Essa é também a principal razão porque a Humanidade, não obstante todas as conquistas tecnológicas, continua em sua maioria crente em Deus através das inúmeras religiões, que têm suas próprias formas de conceber a vida futura. O que seria do mundo se não fosse a fé que conforta e permite viver? Independente de como concebem Deus e o futuro no além túmulo, essa é a principal razão porque todas as religiões, em certo sentido profundo, estão certas ao mesmo tempo. Investem  a seu modo na certeza da vida maior, adaptadas conforme a formação e o grau de discernimento de cada pessoa. Não se deve imputar às religiões (ou seja, às doutrinas que professam) a culpa pelos males praticados em seu nome: de fato, tratam-se de aberrações que surgem quando a incúria e a iniquidade reinterpretam do seu jeito as lições da vida superior. As distorções observadas se explicam porque alguns religiosos apenas se apegam intelectualmente a uma verdade maior e continuam a viver do mesmo jeito. Ainda assim, quem poderia garantir que não seriam muito piores se não fosse a parca luz que pregam? 

Em resumo, temos como certo que é "necessário o escândalo", pois ele faz parte do processo de aprendizado a que cada pessoa está sujeito neste mundo de testes morais incessantes. Mas, entre ser afetado pela onda do mal e viver com serenidade, podemos escolher semear a certeza de que o amor e a vida futura são patrimônios inalienáveis da alma dos quais somos todos herdeiros no futuro. O quão distante esse futuro se encontra, depende inteiramente de nós.