Cidades no além descritas por experiências de quase morte e André Luiz

Visão do mundo. Sergey S. Kuznetsov (fonte: Nowimir)

A muralha era de jaspe,
 e a própria cidade era de ouro puro,  claro como vidro.
Apocalipse 21:18

Enquanto no Brasil debates na comunidade espírita [1b] punham em dúvida as descrições de cidades no além (como descritas, por exemplo, nos livros de André Luiz), uma literatura paralela e de origem não espírita confirmava essas descrições. 

As chamadas experiências de quase-morte, EQMs (em inglês, NDEs para near-death experiences), são descrições que ocorrem em pacientes que sofrem paradas cardíacas de longa duração, quando o cérebro não mais se apresenta suficientemente irrigado para prover a função da consciência. Tais informes se assemelham bastante às antigas experiências de êxtase espiritual. 

Seria mais fácil interpretar essas experiências como delírios de uma mente em agonia, não fossem as chamadas "experiências verídicas" em que os pacientes descrevem cenas e eventos próximos ao seu corpo e que são confirmados como "reais" por participantes do ambiente. Não é tão fácil, assim, dissociar tais experiências de prováveis sensações do Espírito desdobrado, que sente o ambiente que o circunda com os olhos da alma. Com relação ao caráter verídico das descrições de pacientes de EQM, alguns artigos específicos são [2c, 2d].

Em um artigo de 2015 [1], o Dr. B. Greyson comenta sobre as características das experiências de quase morte que têm se acumulado recentemente:

Ao cunhar o termo "experiência de quase morte", Moody identificou 15 elementos frequentemente relatados nas narrativas de EQM: inefabilidade, ouvir a si mesmo ser declarado morto, sentimentos de paz e tranquilidade, ouvir ruídos incomuns, ver um túnel escuro, estar "fora do corpo", encontrar "seres espirituais", uma luz brilhante frequentemente vivenciada como um "ser de luz", revisão panorâmica da vida, um reino onde reside todo o conhecimento, cidades de luz, um reino de espíritos extasiados, um "resgate sobrenatural", a percepção de uma fronteira ou limite intransponível e o retorno ao corpo. [ref.  1, p. 776 grifos meus]

A referência citada por Greyson é [2b]. Em um artigo de 1993, Widdison e Lundahl [4] chamam a atenção para esse aspecto comum reportado em experiências de quase morte:

A Cidade da Luz é outro reino descrito por pessoas que vivenciaram experiências de quase morte (EQMs) como um mundo de beleza sobrenatural e etérea, com cores consideradas inesquecíveis, paisagens celestiais de detalhes incríveis e uma música sublime, diferente de tudo o que já se experimentou na Terra. Essas pessoas também descreveram construções belíssimas e de acabamento primoroso, vegetação e flores de beleza indescritível — exibindo todas as cores do arco-íris — e animais. A Cidade da Luz é descrita como um lugar onde é sempre primavera, com um sol radiante, nuvens, neblina, céus e estrelas.

"Cidades de luz" foi o termo usado por Lundahl para descrever esses ambientes que, para religiosos que aceitam as experiências de EQM, se tornam "visões do céu". Uma prova de que os responsáveis por tais descrições nunca leram André Luiz está no artigo pioneiro de Craig R. Lunhdahl sobre EQM em membros de sociedades dos Mórmons [5]. Na época em que foi escrito, esse artigo pretendia interpretar os relatos como produto das crenças desse sistema religioso em particular. Entretanto, com o passar do tempo, relatos semelhantes de outros pacientes sem relação com uma religião definida se acumularam e não mostraram diferenças. 

Cidades de luz

No que segue, traduzimos trechos de [4] sobre aspectos específicos desse ambiente espiritual. Lembramos que tais descrições não se originam de pessoas que tiveram contato com a literatura espírita recente e muito menos com André Luiz. Tanto quanto possível, replicamos as referências. Observe o leitor que o artigo citado recompõe a paisagem narrada por pacientes de NDE com base em dezenas de outros artigos publicados em revistas acadêmicas em diversas décadas anteriores. Nos abstemos, porém, de citar novamente esses trabalhos, que estão todos referenciados em [4], caso o leitor tenha interesse nas descrições originais. 

Paisagens naturais

A paisagem da Cidade da Luz assemelha-se muito à da Terra, mas é muito mais bela. Ela contém montanhas, colinas e rochas, pequenas e grandes, e vales belíssimos, semelhantes a cristal. Há grandes campos vazios com grama alta e dourada, muito macia, de beleza extraordinária e muito brilhante, além de belos prados com grama linda e as mais belas e verdes pastagens. Em muitas dessas áreas, existem caminhos, trilhas pelos prados e veredas que atravessam a grande floresta de árvores.

Na paisagem próxima à Cidade da Luz, encontram-se lagos grandes e maravilhosos de águas belas e límpidas, além de lagos de tom azul-claro, rios, córregos de águas cristalinas e riachos de curso suave. Os parques mais belos que se possa imaginar estão situados tanto dentro quanto fora da Cidade da Luz. [p. 241, 4]

Vida animal

Um ponto controverso, ainda que possamos descrever como mais uma "querela" entre espíritas no Brasil, é a questão da existência de vida animal no mundo espiritual. Alguns espíritas acreditam que não existiriam animais, pois o corpo fluídico desses seres seria "imediatamente" redirecionado a novas existências terrestres depois da morte. De qualquer forma, há descrições, entre pacientes de experiências de quase-morte, sobre a presença de animais:

Embora pessoas que vivenciaram experiências de quase morte (EQM) raramente mencionem a vida animal na Cidade de Luz, alguns relatos fazem referência a pássaros, gado, ovelhas e cavalos. Uma dessas pessoas viu todo tipo de animal do lado de fora das belas cidades do outro mundo. Outro relator da experiência disse que "havia animais: pássaros, borboletas e pequenas criaturas peludas, uma delas semelhante a um filhote de cervo". Um indivíduo afirmou ter observado grama verde salpicada de delicadas flores roxas e pequenos pássaros encantadores cantando. Havia também pássaros cantando em um dos relatos de EQM de Ring. Por fim, ... registrou um relato no qual a pessoa viu gado e ovelhas, e outro, separado, no qual viu cavalos; além disso, uma pessoa descrita por Melvin Morse e Paul Perry também viu cavalos. [p. 241, 4]

Os autores de [4], portanto, concluem:

A importância dessas observações sobre a vida animal no outro mundo reside nas implicações que elas trazem para a existência de espíritos de animais, assim como de espíritos humanos, na vida após a morte.  [p. 242, 4]

Plantas no mundo espiritual

Não faltam relatos de pessoas que vivenciaram experiências de quase morte sobre a vegetação encontrada na Cidade da Luz. Depreende-se desses relatos que todas as formas de vida vegetal estão presentes no local, incluindo grama, gramados, trepadeiras, flores, jardins, arbustos e árvores. Uma pessoa que vivenciou uma EQM descreveu ter ido a um grande campo vazio, coberto por uma grama alta e dourada, muito macia e brilhante; essa grama, que oscilava suavemente, era de uma beleza tão extraordinária que a pessoa afirmou que jamais a esqueceria. Também se encontra ali uma grama verde-brilhante, viçosa e fresca, pontilhada por delicadas flores roxas.

Uma pessoa que vivenciou uma EQM encontrou uma trilha na mata que estava quase oculta pela vegetação rasteira. Outra pessoa descreveu o ambiente na Cidade da Luz como belo — semelhante a um jardim, com flores, gramado e árvores —, lembrando-lhe um parque à beira de um rio que frequentava na infância para reuniões de família.

Entre a rica vegetação da Cidade da Luz, encontram-se muitas plantas verdes e trepadeiras. Uma pessoa relatou ter visitado um local "dividido em compartimentos por paredes, das quais pareciam brotar trepadeiras e flores, exibindo uma infinita variedade de cores".

As flores da Cidade da Luz são tão belas que quase desafiam qualquer descrição. Um relato mencionou flores de inúmeros tipos, incluindo plantas que apresentavam de 50 a 100 flores de cores diferentes crescendo em uma única haste. Outra pessoa disse ter visto "as flores mais lindas. Ninguém nesta Terra jamais viu as flores belas que vi lá... Não acredito que exista uma cor nesta Terra que não estivesse presente naquele espetáculo de cores que presenciei".

Relatos de EQM descrevem flores cintilantes de todas as cores do arco-íris, bem como campos e paisagens repletos de flores. Eles descreveram flores roxas, margaridas e belas flores de todos os tipos, flores altas e flores grandes que lembram dálias grandes e altas. Alguns indivíduos que vivenciaram experiências de quase morte também relataram sentir o aroma dessas flores.

Uma análise mais aprofundada dos relatos de experiências de quase morte sobre a vegetação na Cidade da Luz revela menções frequentes a jardins. Os melhores jardins da Terra nem sequer se comparam aos jardins da Cidade da Luz. Uma pessoa que vivenciou uma EQM afirmou não ter palavras para descrever a beleza do jardim em que entrou: "Era mais belo do que qualquer coisa que eu já tivesse visto na Terra, incluindo o Jardim de Keukenhof, na Holanda, na época das tulipas". Esse mesmo sentimento foi expresso por outra pessoa que teve a experiência. Outro relato descreve alguém que despertou em um jardim repleto de flores grandes: "O ambiente era quente e iluminado naquele jardim, e ele era lindo". Betty Eadie entrou em um jardim repleto de árvores, flores e plantas de cores intensas. Outros relatos descrevem jardins semelhantes a áreas arborizadas com plantas tropicais, bem como jardins com belas calçadas, bancos e pátios. 
 [p. 242-243, 4]

Em "Nosso Lar", de André Luiz, podemos ler: 

Nenhum sem flores à entrada, destacando-se algumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de hera, onde rosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o verde de cambiantes variados. Aves de plumagens policromas cruzavam os ares... (Nosso Lar, Capítulo 7)
ou
Periodicamente, as árvores eretas se cobrem de flores, dando ideia de pequenas torres coloridas, cheias de encantos naturais. Temos, assim, no firmamento, o teto acolhedor, com as bênçãos do Sol ou das estrelas distantes. (Nosso Lar, Capítulo 32)
o que mostra que A. Luiz foi até econômico na descrição de seu ambiente. A policromia, variedade, cintilância e beleza dessas flores são temas comuns entre as descrições de A. Luiz e dos pacientes de EQMs.

Imagem representativa da existência de flores no mundo
espiritual nos relatos de pacientes de EQM.

Arquitetura das cidades
Além do portal, existe uma cidade: a Cidade da Luz. Utilizamos aqui o termo "Cidade da Luz" para representar, de modo geral, as cidades do outro mundo, visto que esse reino abriga, de fato, diversas cidades belas e esplêndidas. Essa cidade foi descrita como um reino magnífico e belo, inteiramente branco, e como um lugar de belas construções e caminhos dourados. Ela possui belas ruas pavimentadas com um lindo carpete de seda e conta com pontes.

Diz-se que as construções da Cidade da Luz são belíssimas, apresentam um acabamento primoroso e são mais bem edificadas do que as da Terra. Uma pessoa que vivenciou uma EQM falou sobre as construções que viu lá, observando que, embora o Senhor tenha concedido sabedoria a Salomão e colocado ouro e prata em suas mãos para que ele demonstrasse sua habilidade e talento, o templo erguido por Salomão era muito inferior às construções mais comuns que ela viu no mundo espiritual. Outra pessoa, ao entrar em um grande edifício, disse: "Fiquei impressionado com seus detalhes e sua beleza requintada. As construções lá são perfeitas; cada linha, ângulo e detalhe foi criado para complementar com perfeição toda a estrutura". Entre as construções, incluem-se enormes anfiteatros, um belo palácio descrito por alguém que vivenciou uma EQM como a Casa de Davi, estruturas de mármore semelhantes a mausoléus e repletas de luz, grandes salões e bibliotecas ou edifícios educacionais.
George Ritchie descreveu edifícios enormes situados em um belo parque ensolarado, onde havia uma relação entre as várias estruturas e um padrão na disposição das coisas, semelhante ao de uma universidade bem planejada. Ele descreveu ter entrado em um dos edifícios e percorrido um corredor de pé-direito alto, ladeado por portas imponentes. A atmosfera do local era a de um grandioso centro de estudos, com amplos saguões e escadarias curvas. Através de portas abertas, ele vislumbrou salas enormes repletas de equipamentos complexos, gráficos e diagramas intrincados, controles e consoles elaborados. Ele descreveu a visita a outros edifícios, incluindo um estúdio onde músicas muito complexas estavam sendo compostas e executadas; uma vasta biblioteca repleta de documentos em pergaminho, argila, couro, metal e outros materiais; e um observatório espacial. No auge de sua experiência de quase morte, Ritchie relatou ter visto uma cidade feita de luz.  [p. 243-244, 4]
Há ainda descrições de decorações no interior dos edifícios:
Os aposentos dessas várias estruturas são belos, como comprovam os relatos de pessoas que vivenciaram experiências de quase morte e visitaram esses locais. Por exemplo, uma dessas pessoas descreveu um aposento grande e branco onde esteve como sendo belo, com um piso de tom dourado-âmbar que refletia todas as imagens como um espelho. As paredes tinham acabamentos em ouro e, em uma das extremidades do aposento, havia duas portas grandes, também com detalhes em ouro. Outra pessoa que vivenciou uma EQM afirmou que palavras humanas não eram suficientes para descrever a beleza do aposento em que entrou enquanto estava no outro mundo: "Havia muita luz, um brilho que ia além do simples branco — uma espécie de iridescência multicolorida. Não temos palavras em nosso idioma para descrever a beleza, não apenas do aposento, mas também das pessoas". Ricky Davis, um menino de 12 anos, disse aos pais que já havia "visitado dois aposentos do templo do outro lado e que, se tivéssemos visto o que ele viu, todos nós quereríamos ir com ele".[p. 243-245, 4]
O artigo citado [4] pode ser considerado relativamente recente, embora a literatura tenha acumulado, desde então, outros relatos.

Conclusão

No início do movimento espiritualista e, depois, com a literatura mediúnica, surgiram relatos de estruturas no mundo espiritual que se assemelham às da Terra. Em especial, cidades ou colônias espirituais foram descritas [1b]. Essas narrativas também são encontradas na literatura mais recente, em especial de A. Luiz, sobre tais cidades. A mais famosa delas ficou conhecida por esse autor como "Nosso Lar''. 

Ainda mais recentemente, com o crescimento das pesquisas em torno das experiências de quase-morte, descrições semelhantes a essas da literatura espírita começaram a se acumular. Por terem origem em pessoas que nunca tiveram contato com a literatura espírita (ou espiritualista), e por se associarem a relatos verídicos de experiências no entorno do corpo agonizante, elas podem ser consideradas como as mais recentes descrições do mundo espiritual. 

A concordância dessas descrições mostra que se referem a estruturas existentes no mundo espiritual, apesar da dúvida dos céticos. O fato de Kardec não ter se referido a elas de forma explícita em suas obras fundamentais não significa que ele não as considerasse ou que lhes fosse cético. O foco de suas obras era notoriamente filosófico. É bem conhecida a relutância que Kardec tinha em incluir detalhes particulares nas comunicações que analisava. Tais detalhes podem ter sugerido a Kardec perda de foco na disseminações dos princípios espíritas.

Esses informes do mundo espiritual, que existiram desde os inícios do movimento espiritualista, provavelmente também serviram de inspiração para narrativas bíblicas de cidades como a "Nova Jerusalém" (Apocalipse 21). Talvez haja outros relatos ainda mais antigos em que essas paisagens também inspiraram o paraíso dos eleitos nas inúmeras crenças religiosas do mundo.

Referências

Todos os links conforme disponíveis em setembro de 2026.

Livros

[1b] Neto, Paulo (2015). As colônias espirituais e a codificação. Editora Ethos. Divinópolis/MG. 

[2b] Raymond A. Moody (1975). Life after Life. Covington: Mockingbird Books.

Artigos

[1] Greyson, B. (2015). Western scientific approaches to near-death experiences. Humanities, 4(4), 775-796. https://www.mdpi.com/2076-0787/4/4/775

[2c] Ring, K., & Lawrence, M. (1993). Further evidence for veridical perception during near-death experiences. Journal of Near-Death Studies, 11(4), 223-229. Acesso a este artigo aqui.

[2d] Van Lommel, P. (2011). Near‐death experiences: the experience of the self as real and not as an illusion. Annals of the New York Academy of Sciences, 1234(1), 19-28. Acesso a este artigo aqui.

[4] Widdison H. A. & Luhdahl C. R. (1993), The Physical Environment in the City of Light, Journal of Near-Death Studies, 11(4). Disponível para consulta aqui.

[5] Lundahl, C. R. (1982). The perceived other world in Mormon near-death experiences: A social and physical description. OMEGA-Journal of Death and Dying, 12(4), 319-327. Acesso ao artigo aqui.




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