Opositores de Kardec no movimento espiritualista

Fig. 1 Emma H. Britten por volta de 1860. Imagem: Arquivo EMH.

Entre os chamados "inimigos" de Kardec estavam diversos grupos, tais como religiosos convencionalistas, materialistas, os (que se diziam) espíritas que não aceitavam certos princípios abraçados por ele e, finalmente, espiritualistas. Kardec sempre deixou claro que o termo "Espiritismo" foi escolhido não em oposição ao "Espiritualismo", mas porque esse último deveria se referir apenas à doutrina filosófica em oposição ao materialismo. Talvez exista algo mais nessa escolha de Kardec do que clareza etimológica, como sugerido neste post.

Emma Hardinge Britten (1823-1899), Figura 1, foi uma escritora inglesa que se destacou pela divulgação dos "fenômenos espiritualistas", tendo seguido o trajeto da fenomenologia em boa parte dos eventos que tomaram conta de diversos países no século XIX. Notabilizou-se também como médium vidente e capaz de revelar o futuro. Ela previu corretamente o trágico episódio do naufrágio, em 1875, de um navio da Pacific Steam navigation em que todos os tripulantes haviam morrido. 

Uma lista de suas inúmeras publicações está disponível nesta entrada da Wikipedia [4]. Chama-nos a atenção What is Spiritualism [1868, 2] e The Great Funeral Oration on Abraham Lincoln [1865, 3]. É entretanto, em sua obra Ninetenth Century Miracles or spirits and their work in every country on the Earth (ou "Os milagres do século 19 ou sobre os espíritos e seus trabalhos em cada país da Terra" [1]), que podemos encontrar sua opinião sobre o movimento espiritualista ao redor do mundo. O índice já nos dá uma ideia do que se entendia por "mundo" no século XIX. O Brasil não se destaca entre os diversos países citados. Há, entretanto, um capítulo sobre a América do Sul. Citações ao Brasil, falam da revista Monitor de Alem-Túmulo, publicada no Rio de Janeiro em 1875, e de uma Revista Espírita, publicada em 1881 (ver p. 288 de [1]). A partir de certo ponto, porém, a autora confunde periódicos argentinos com brasileiros e chama São Paulo de San Pablo.

Críticas a Kardec

Passemos, porém, diretamente ao que nos interessa neste post. Por sua importância, há vários capítulos em [1] dedicados à França. No que segue, tudo o que está em marrom são citações dessa autora. Todos os grifos são meus.

Logo no início do primeiro capítulo dedicado à França, ela considera:
Na Alemanha, os aspectos físicos e científicos do Espiritualismo foram mais bem acolhidos do que as suas vertentes religiosas. Na França, a situação é diferente. Lá, as características nacionais são marcadas pelo impulso e pela emoção; por isso, os ensinamentos espiritualistas promoveram a formação de novas seitas e despertaram nos seus adeptos um profundo sentimento religioso. (p. 42, [1])

Essa observação estabelece o tom das críticas que viriam. Britten e os espiritualistas ingleses estão interessados na fenomenologia. Por causa disso, conferem uma importância maior a determinados tipos de mediunidade do que a outras. Por exemplo, têm em alta conta os médiuns de efeitos físicos. Isso é relevante para entender suas considerações sobre o movimento espírita francês no século XIX.

Depois de um longo relato sobre as experiências de Cahagnet, Britten informa seus leitores sobre uma divisão profunda no e Espiritualismo francês:

Dois dos nomes de maior destaque no grande drama do Espiritualismo francês — e que, muito provavelmente, exerceram mais influência sobre a opinião pública do que quaisquer outros integrantes desse elenco — foram Allan Kardec e Piérart, editores, respectivamente, dos dois principais periódicos do gênero: La Revue Spirite e La Revue Spiritualiste. Esses homens podem ser vistos também como representantes de duas correntes opostas: a dos espiritualistas e a dos espíritas. Os primeiros ensinavam que a alma humana passa por apenas um nascimento mortal e prossegue em sua evolução pela eternidade em estados espirituais; já os segundos defendiam a doutrina da reencarnação, sustentando que o espírito humano pode passar e de fato passa por múltiplas encarnações em diferentes formas mortais.

Até aqui, aprendemos que, na França, havia um "outro lado" de seu movimento que era chamado Spiritualisme. Pelo menos do que se depreende do relatório de Emma Britten, quando o chamado Espiritualismo de origem inglesa chegou à França, esse termo foi imediatamente traduzido por Spiritualisme. Porém, uma divisão interna causada pela aceitação da reencarnação por certo grupo provocou o surgimento do termo Espiritismo. Britten passa, então, a descrever a origem da crença na reencarnação a partir de seu ponto de vista espiritualista.

Britten reproduz em [1, ver página 46] um longo relatório, feito por Alexander Aksakof (1832-1903) de 1875, em que ele acusa Kardec de ter inserido a doutrina da reencarnação em O Livro dos Espíritos com base em "transes mesméricos" da médium Srta. Japhet (seu nome de família seria Celina Bequet), que esteve sob influência do Sr. Roustan, conhecido magnetizador. Segundo Aksakof, Roustan era amigo de Kardec e fervoroso reencarnacionista. Para compreender essa história, é necessário saber que, entre os espiritualistas de então, não havia consenso em relação à origem das informações fornecidas por médiuns. Embora a maioria acreditasse na origem espiritual, os mais "científicos" (tal como Aksakof) desconfiavam de certos médiuns a quem atribuíam mensagens induzidas por "transes mesméricos". Para Aksakof, Japhet estaria sob influência mesmérica de Roustan e não poderia deixar de manifestar mensagens em apoio à reencarnação.

Aksakof dá a entender que Japhet acabou por se ressentir dos espíritas, já que seu nome não recebeu os devidos créditos na principal obra de Kardec:

Em 1856, ela conheceu o Sr. Denizard Rivail, apresentada pelo Sr. Victorien Sardou. Ele organizou os materiais por meio de uma série de perguntas, organizou o conjunto de forma sistemática e publicou "O Livro dos Espíritos" sem jamais mencionar o nome da Sra. C. Japhet, embora três quartos da obra tivessem sido transmitidos por intermédio de sua mediunidade. O restante foi obtido por meio de comunicações da Sra. Bodin, que pertencia a outro grupo espírita. Ela não é mencionada, exceto na última página do primeiro número da "Revue Spirite", onde, em razão das inúmeras críticas que lhe foram dirigidas, ele faz uma breve menção a ela.

Esse tipo de narrativa, obviamente, despreza os aspectos filosóficos da obra, além de passar a falsa impressão de que tudo foi apenas uma questão de "organizar" as respostas prontas em ordem numérica. Porém, aprendemos uma outra razão para a dicotomia de pensamento que se estabeleceu, aparentemente, por causa da reencarnação:

Para sustentá-la, ele (Kardec) sempre recorreu a médiuns de efeitos intelectuais (ou psicógrafos), os quais, como é sabido, facilmente se deixam influenciar psicologicamente por ideias preconcebidas — e o Espiritismo gerou tais ideias em profusão —, ao passo que, por meio de médiuns de efeitos físicos, as comunicações são não apenas mais objetivas, mas sempre contrárias à doutrina da reencarnação. Kardec adotou a estratégia de sempre menosprezar esse tipo de mediunidade, alegando como pretexto a sua inferioridade moral. [p. 47, 1]

Em outras palavras, as diferenças se assentavam na rejeição da ideia da reencarnação, em parte das comunicações obtidas por médiuns de efeitos físicos (os espiritualistas reconheciam que "algumas" comunicações confirmavam a ideia). Aksakof reconhece que o que apresenta em seu relatório "não afeta a questão da reencarnação", mas apenas sua origem no movimento espírita. Portanto, para esses espiritualistas, pouco importava a justiça da reencarnação. Para eles, ela não poderia acontecer, pois os Espíritos que se manifestavam por médiuns de efeitos físicos não aprovavam a ideia. Mas, eles não aprovavam essa ideia justamente por não se lembrarem de suas vidas anteriores, visto que eram Espíritos inferiores. Esse argumento, porém, era completamente rejeitado pelos espiritualistas.

Britten continua sua análise da disputa, para a qual adiciona seu próprio ponto de vista ou ecos de seu movimento espiritualista. Ela reconhece a questão crucial da reencarnação nesta passagem:
Ainda assim, os adeptos da teoria da reencarnação podem perguntar: que importância tem se essa doutrina foi ensinada primeiramente por Roustan ou por Kardec, desde que seja verdadeira? Pois é, exatamente! Desde que seja verdadeira! Essa é, de fato, a questão principal; mas, antes que ela possa ser respondida, surge outra: como se pode verificar a veracidade dessa doutrina? E, além disso: podemos obter algum conhecimento verdadeiro sobre a existência espiritual senão por meio dos próprios espíritos — e isso em comunicações realizadas sob condições que excluam a possibilidade de interferência ou viés humano?

A isso se pode objetar que não existem tais condições de independência, visto que a opinião geral é a de que as comunicações espirituais são sempre, em maior ou menor grau, influenciadas pelas características do médium por intermédio do qual a inteligência se manifesta. [p. 48, 1]

Os espiritualistas jamais imaginariam que a Natureza não tivesse outras fontes de evidência sobre a reencarnação que não fossem as comunicações mediúnicas. Ou seja, levaram em alta conta apenas as opiniões dos Espíritos, aqueles que lhes eram preferidos, e para os quais tinham seu próprio "critério de concordância universal". Desprezavam os efeitos intelectuais, pois achavam que esses sempre estariam "contaminados" com ideias preconcebidas dos médiuns. 

Britten creditou a propagação das ideias espíritas ao fato de que há mais "leitores do que pensadores" entre o público em geral, que caiu sob influência pessoal e psicológica de Kardec:
Podem-se encontrar simpatizantes das obras de Allan Kardec dispersos por todo o continente europeu e, em menor número, também na América. Poucas pessoas que leem obras apresentadas com pretensões de autoridade possuem a capacidade de assimilar profundamente o conteúdo; por isso, quando os livros de Kardec foram traduzidos para o inglês e a editora se interessou em promover sua circulação, eles encontraram mais leitores do que pensadores, e seu estilo convincente despertou mais admiração do que convicção sincera. Na França, sem dúvida, a influência pessoal e o forte poder psicológico de Kardec o tornaram um propagandista nato; e, ao lembrarmos com que facilidade doutrinas defendidas com eloquência conquistam adeptos — especialmente entre naturezas inquietas e impressionáveis —, não é difícil compreender por que os escritos de Kardec se tornaram tão populares e suas opiniões, tão amplamente aceitas por seus leitores. Havia pouca ou nenhuma literatura espírita difundida em língua francesa quando as obras de Allan Kardec foram publicadas pela primeira vez. [p. 54, 1]

Esse tipo de crítica se assemelha a outras no movimento espírita local, em que alguns espíritas se consideram mais "pensadores do que meros leitores", e não aceitam obras que dizem se desviar da "pureza doutrinária" ou da maneira como enxergam o Espiritismo (ao invés de Kardec, eles se opõem, por exemplo, a Chico Xavier). Até aqui, portanto, nada de novo sob o sol.

O contrapeso para tais disparates, segundo Britten, estaria no principal "campeão admirável" do Spiritualisme na França, Z.-J. Piérart:

Não obstante o fato de que o método experimental de receber comunicações por meio da mediunidade física não contava com o apoio de Allan Kardec e de seus seguidores (o grupo dominante no movimento moderno na França), existe uma vasta quantidade de fenômenos de toda espécie registrados na excelente revista de Pierart, *La Revue Spiritualiste*, bem como em muitas outras publicações europeias dedicadas ao assunto. [p. 62, 1]

Alguns espiritualistas modernos, ainda fascinados com aspectos fenomenológicos, acham que Piérart defendeu melhor o ideal da sobrevivência do que Kardec (Figura 2). Em algumas fontes online sobre Piérart se diz que ele e Kardec protagonizaram uma "batalha de periódicos" na França, embora seja difícil achar, nas obras de Kardec, referências a tal batalha. 

Quem foi Piérart?

Zéphirin Joseph Piérart (1818-1879, que também assinava como Z. T. Piérart) foi um jornalista e polemicista, que se tornou célebre em sua época, principalmente por sua rivalidade com Kardec. Tendo abraçado fervorosamente o Spiritualisme, Piérart fundou La Revue Spiritualiste em 1858 (Figura 2, interessados em conhecer essa obra, faço referência a [7]), que dizem ter empreendido uma batalha contra a Revue Spirite. Antes disso, ele foi editor do Le Journal du Magnétisme. Tentou continuar suas ideias políticas por meio do Concile de la Libre Pense (1870-1874), ou "conselho do livre pensamento" [6]. Tal como sua Revista Espiritualista, seu conselho foi banido da França por conter propaganda anticlerical.

Fig. 2 Frontispício do primeiro número da Revista Espiritualista de Piérart. Nessa capa, pode-se ler que a revista era "principalmente consagrada ao estudo das faculdades da alma e da demonstração de sua imortalidade pelo exame racional". Segundo o texto de apresentação em [7], "essa revista é muito mais abrangente e interessante do que a Revue Spirite, contemporânea de Kardec". A razão, provavelmente, está na quantidade de relatos de médiuns (principalmente de efeitos físicos) reportados e nas escassas discussões teóricas ou filosóficas. Esses casos fenomenológicos naturalmente não interessavam a Kardec.

Além de ter representado bem os espiritualistas ingleses que não aceitavam a reencarnação, outra grande contribuição de Piérart foi ter defendido a ideia do vampirismo como de natureza psíquica. Para Piérart, os vampiros seriam almas que desejariam manter a impressão dos vivos atacando cadáveres de recém-falecidos. Por causa disso, em que pese sua rivalidade com Kardec, ele é mais conhecido hoje como um dos grandes vampirólogos do século XIX [5]. 

Emma Britten deplora o fato de que, das revistas interessadas na fenomenologia espírita na França, todas eram de seguidores de Kardec, exceto a revista de Piérart. Uma pequena ideia da rivalidade entre espíritas e espiritualistas é dada por Britten aqui:

O grau de afinidade dos defensores da reencarnação com o Espiritualismo propriamente dito pode ser deduzido do fato de que eles jamais deram atenção a uma obra publicada em 1865 no periódico do Sr. Pierart — tida como produto de espíritos, por intermédio da mediunidade do Dr. C. Maldigny — intitulada "Swedenborg". Várias pessoas de talento literário consideraram essa obra de grande mérito; contudo, como seu editor, o Sr. Pierart, era espiritualista, nenhum sequer dentre a multidão de jornalistas espíritas contribuiu para divulgá-la com uma única palavra de comentário.

Esse é apenas um entre muitos fatos análogos que demonstram a total falta de afinidade existente entre as partes opostas. [p. 54, 1]

Em suma, os espíritas teriam se recusado a divulgar a tal obra, pois Piérart era espiritualista. Esse fato não passou despercebido para o London Spiritual Magazine de 1865:

É muito de lamentar que o objetivo principal dos periódicos kardecistas pareça ser não a demonstração dos fatos constantemente recorrentes do Espiritualismo, mas a deificação da absurda doutrina da reencarnação de Kardec. [p. 55,1]

Não consegui achar citações, em qualquer obra publicada de Kardec, do nome Piérart, ainda que reflexos desse conflito se escondam talvez em termos como "adversários" ou "opositores", que foram usados por Kardec certamente. As referências ao Espiritualismo, nas obras de Kardec, são todas feitas no contexto da doutrina filosófica que se opõe ao materialismo. Provavelmente, o silêncio para "evitar disputas" teria sido interpretado como desprezo. 

Não temos ideia, porém, do alcance da revista de Piérart, ainda que ele tenha contado com o apoio dos espiritualistas ingleses. Mas, é possível que as críticas dos espiritualistas à reencarnação tenham servido para impulsionar a propagação do Espiritismo na França. Ainda mais se considerarmos a rivalidade milenar entre ingleses e franceses, os nacionalistas franceses estariam pouco dispostos a apoiar Piérart (conhecido por se envolver em polêmicas políticas da época), daí a atenção que deram a Kardec.

Uma certa inveja de Kardec

Finalmente, não é possível deixar de notar certa inveja entre os espiritualistas do prestígio alcançado por Kardec. Emma Britten revela isso por meio de sua personalidade feminina, altamente sensível ao sentimento da época. Em suposições sobre o paradeiro de Kardec após sua desencarnação, ela vaticina:

E agora, esse mesmo Allan Kardec é um espírito! Ele deixou o cenário de sua peregrinação terrena em 31 de março de 1869.

Qualquer que tenha sido o impulso que o levou a promulgar uma doutrina repleta de elementos que muitos espiritualistas consideram falsos e prejudiciais, é impossível que ele pudesse ter exercido sobre seus simpatizantes mais próximos uma influência tão vasta sem ser um homem de intelecto poderoso e energia indomável. É também impossível que ele tenha permanecido por tanto tempo no centro de um grande círculo sem ser conhecido pelo que realmente era; e, visto que todos os seus colaboradores mais íntimos emitem sobre ele um veredito de excelência superior, quem ousaria atribuir ao coração e à intenção do homem um erro intelectual colossal?

Reconheçamos cordialmente que ele possuía os elementos da grandeza. Entretanto, qualquer que seja agora o seu estado de sentimento e conhecimento, temos a certeza de que ele se encontra na terra da luz, onde não mais verá "como por um espelho, de forma obscura, mas face a face" a verdade divina. Não fosse pelo vício da época, que se compraz em representar a grandeza através das aparências da mediocridade, poderíamos esperar saber, dos lábios do próprio espírito liberto, como ele passa e até que ponto seus olhos espirituais se abriram para as realidades de sua nova esfera de existência. Ainda assim, consolamo-nos com a certeza de que todo progresso, para todas as almas vivas, é apenas uma questão de tempo e de que, mais cedo ou mais tarde, ele se juntará aos poderosos exércitos do progresso, cuja divisa, por toda a eternidade, é: *Excelsior*! [p. 57, 1]
Tais considerações foram estendidas inclusive à esposa de Kardec:
Cabe registrar, nesta breve nota sobre um homem memorável, que os seguidores de Allan Kardec costumam reunir-se anualmente junto ao seu túmulo, no Père Lachaise, para celebrar — com todo o amor e interesse que a memória dele desperta — a sua contínua ligação, ao menos em espírito, com o seu grande líder. Até o ano passado, a venerável Madame Kardec participava dessas comoventes cerimônias de aniversário. Muito recentemente, porém, a nobre viúva partiu para reencontrar — como firmemente cremos — o marido a quem parecia estar unida por laços de ternura e afeição pessoal que, curiosamente, contradizem a sua tão prezada filosofia da reencarnação[p. 57, 1]

Os inúmeros casos hoje disponíveis de crianças que se lembram de vidas anteriores e as noções de reencarnação transmitidas a pacientes que passam por experiência de quase-morte [8] demonstram que Kardec estava certo em ter confiado nas instruções de seus Protetores. Também mostram, para espanto dos espiritualistas (e, por que não dizer, de certos espíritas modernos), que há outros meios na Natureza de tornar evidente a reencarnação, além da opinião dos Espíritos.

Conclusão

Quando encontrei por acaso o texto de Britten [1] e li sua descrição do movimento francês, imediatamente associei as ideias desse texto à insistência de Kardec para que jamais usássemos o termo espiritualismo como referência ao Espiritismo. Se é certo que a justificativa inteligente dada por Kardec é razoável, pareceu-me claro que a rivalidade dos espiritualistas de sua época pode ter motivado ainda mais essa distinção.

Por clareza etimológica, podemos entender espiritualismo como uma referência à doutrina filosófica em oposição ao materialismo. Mas, no contexto transitório das lutas humanas (que perduram até hoje), teria sido altamente confuso insistir no uso de "espiritualismo" com única referência à doutrina espírita de hoje. A nova doutrina codificada por Kardec tinha como princípio a ideia inaceitável para os espiritualistas das vidas sucessivas. 

Para os espiritualistas modernos, entretanto, a falta de consistência das teses defendidas por seus predecessores pode ter custado muito à popularização de suas doutrinas. A simples divulgação de casos da fenomenologia mediúnica não foi suficiente para atrair mais adeptos. Os médiuns de efeitos físicos, tão caros aos espiritualistas, minguaram com o passar do tempo (principalmente e, por coincidência, depois de 1869). Evidências não mediúnicas apareceram para a reencarnação (como nos casos de crianças que se lembram de existências pregressas). Porém, entre a fenomenologia e a doutrina (ou seja, a teoria) em sua consistência filosófica, apenas essa última parece ter força para sobreviver no tempo.

O Espiritualismo, tal como o Espiritismo, nasceu para esclarecer a alma humana de seu verdadeiro destino. Esse conhecimento, não prescinde, porém, das noções de seu passado, que está oculto em inumeráveis existências anteriores.

Referências

[1] E. H. Britten (1884). Ninetenth Century Miracles or spirits and their work in every country on the Earth. New York: published by Willian Britten.

[2] https://www.ehbritten.org/texts/primary/ehb_second_annual_report_glasgow_spiritualists.pdf

[3] https://www.ehbritten.org/texts/primary/ehb_great_funeral_oration_1865_2.pdf

[4] https://en.wikipedia.org/wiki/Emma_Hardinge_Britten

[5] Rogo, S. (1968). "In-depth Analysis of the Vampire Legend." Fate 21, no. 9 (September): 77.

[6] Z-J. Piérart (1870). Le Concile de la libre pensée ; abolition des faux dogmes et des mensonges sacerdotaux... Ver:  https://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb311080803

[7] Todos as edições podem ser acessadas aqui:  https://iapsop.com/archive/materials/revue_spiritualiste/index.html

[8] Greyson, B. (2021). Near-death experiences and claims of past-life memories. Journal of Near-Death Studies. Referência na web.



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