Sobre um suposto "desvirtualmento doutrinário" em Emmanuel

Ilustração do tríplice aspecto.

Recebi, a partir do Facebook, a indicação do artigo "A metáfora geométrica de Emmanuel e o desvirtuamento da definição do Espiritismo", por Marco Milani [1], doravante chamado aqui "autor". Neste post, examino os argumentos e as acusações desse autor, que parecem bastante graves, a respeito de suas interpretações de Emmanuel.

Segundo esse texto, haveria uma suposta “modificação da estrutura do Espiritismo” por conta de outra suposta “superioridade religiosa” atribuída a Emmanuel no chamado "tríplice aspecto". Esse é considerado pelo autor um desvirtuamento doutrinário. Inclusive o título do texto fala ainda em "desvirtuamento da definição" de Espiritismo.

No que segue abaixo, em marrom estão trechos do artigo examinado. Em azul estão as citações de Kardec e Emmanuel. Todos os grifos abaixo são meus.

Análise
Repetida quase como um mantra por parcela significativa dos adeptos, a afirmação de que o Espiritismo possuiria três aspectos distintos: científico, filosófico e religioso, perpetua um problema conceitual e doutrinário que deve ser destacado.

Muitos supõem que tal relação estruturante tenha sido proposta por Allan Kardec, o que é falso.
O fato de ter ou não sido proposto por Kardec é irrelevante, desde que se trate de conceitos derivados a posteriori, conforme veremos.
A origem dessa ideia encontra-se no livro “O Consolador”, publicado em 1941, de autoria atribuída ao Espírito Emmanuel e psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier. Conforme relatado em suas páginas iniciais, na seção intitulada “Definição”, integrantes do Grupo Espírita Luís Gonzaga formularam a Emmanuel uma questão partindo diretamente dessa relação ternária.

O problema começa, dessa maneira, antes da resposta. A pergunta não procura saber se essa divisão é adequada ou se corresponderia à definição estabelecida por Kardec. Ela simplesmente pressupõe a existência desses três aspectos. Apresenta como fato doutrinário aquilo que deveria ser demonstrado e induz o comunicante a escolher qual dos supostos aspectos ocuparia posição superior.
Podemos nos perguntar se dividir o Espiritismo em “três aspectos” seria um "fato doutrinário". Mas o que seria isso antes de tudo? Tentemos adivinhar, pois nenhuma definição foi dada. Em raciocínio direto, "fato doutrinário" seria um "fato de doutrina" e, desde que "doutrina" se refere ao Espiritismo, teria a ver ou com os princípios do Espiritismo, ou com suas evidências, o que chamamos aqui "fatos experimentais". Poderíamos elencar as conclusões que Kardec fez em suas diversas obras (incluindo a Revista). Mas aí toparíamos com afirmativas e declarações que nos deixariam em dúvida sobre se uma coisa é ou não fato de doutrina nas questões que não foram resolvidas. É um beco sem saída.

Apliquemos, porém, esse raciocínio à ciência (entendida como disciplina e não atividade do cientista). Certamente, há ao menos dois aspectos em qualquer ciência: seu "aspecto científico" (que é a ciência propriamente dita, entendida como corpo de conhecimento) e o "aspecto filosófico", associado aos "pressupostos metafísicos" dela. Por exemplo, em nenhum lugar dos princípios da física a ideia de Deus é usada. Disso segue que a física não considera a existência de Deus – que sequer constitui objeto de estudo para ela. Essa mesma física assume que tudo o que existe é composto de átomos, e esses de partículas e campos. Logo, para a física, não existe "espírito". Não por acaso, ateus cientificistas se escoram nas premissas da física (e da ciência) para dizer que Deus não existe e que a morte é o fim de tudo.

Agora inferir que tais aspectos pelos quais se possa dividir a ciência são "fato de ciência" é um erro ingênuo; eles não definem o que a ciência é, mas o que ela supõe. Deus e espírito continuam a existir, não obstante a física não partir da existência deles. O caráter filosófico da ciência é assim um aspecto emergente da estrutura de raciocínio e dos pressupostos metafísicos dela.

Da mesma forma, ciência, filosofia e religião não definem o que o Espiritismo é, mas são aspectos emergentes do conhecimento espírita como uma visão do mundo (ver figura). E, se tais aspectos não definem nada no Espiritismo, o suposto "desvirtuamento doutrinário" não existe.
Emmanuel aceita a premissa e compara o Espiritismo a um triângulo. Segundo a resposta, a ciência e a filosofia vinculariam essa figura à Terra, enquanto a religião seria o “ângulo divino” que a ligaria ao céu. A grandeza divina da Doutrina repousaria, segundo Emmanuel, no aspecto religioso. Ciência e Filosofia seriam campos nobres de investigação humana, mas permaneceriam associadas ao plano terrestre. 
A imagem pode impressionar pela simplicidade. Sua fragilidade doutrinária, entretanto, aparece assim que é confrontada com a definição de Kardec.
Considerando o fato de que tal tríplice aspecto nada tem de "fato doutrinário", todas as outras conclusões (acusações, por exemplo, de "fragilidade doutrinária") do artigo perdem valor. 

Não perdemos, porém, a oportunidade de continuar nossa digressão. 

De novo: ciência, religião e filosofia são aspectos emergentes da estrutura de princípios e fatos do Espiritismo. Da mesma forma, podemos dividir o Espiritismo em outros aspectos (por uma questão pedagógica) conforme o gosto ou interesse de estudo. Essa nova divisão em nada tem de "doutrinária" e, muito menos, de "desvirtuante". Não há o que se falar em "fragilidade doutrinária" ou "problema conceitual e doutrinário", e pouco importa se Kardec falou ou não disso

No resumo de seu trabalho [8], S. Chibeni, citado em [1], considera:
Essa caracterização não pode ser encontrada exatamente nesses termos na obra de Kardec. É, porém, correta e, em sua essência, está presente no pensamento do criador do Espiritismo e de seus mais lúcidos continuadores. No entanto, a questão tem dado lugar a mal-entendidos, por causa da compreensão incorreta ou imprecisa dos conceitos de ciência, filosofia e religião, bem como da verdadeira natureza do Espiritismo.
Mas, para o autor, para ter valor, seria preciso que Kardec tivesse criado o tríplice aspecto ele mesmo e, desde que não haja explicitamente nada nos textos de Kardec sobre isso, então tal divisão é "desvirtuante" e "antidoutrinária".
No preâmbulo de "O que é o Espiritismo", Kardec afirma que o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ocupa-se das relações entre os homens e os Espíritos. Como filosofia, compreende as consequências morais decorrentes dessas relações. A definição é clara. Há uma dimensão experimental e uma dimensão filosófica, na qual já estão incluídas as consequências morais.
A religião não aparece como terceira parte autônoma. Para construir o triângulo de Emmanuel, é necessário retirar da filosofia aquilo que Kardec nela incluiu, renomear esse conteúdo como religião e, depois, elevar a nova categoria acima das demais. Não se trata de aprofundamento da definição kardequiana. Trata-se de sua alteração.
Deixemos mais explícito o que Kardec entendia por religião. É óbvio que ele jamais poderia dizer que "Espiritismo é religião", considerando a semântica vulgar dessa palavra no Século XIX. Com toda certeza, tratava-se de culto estabelecido, com rituais, corpo hierárquico, doutrina estática e dogmatizada. Nada disso é aceitável a Kardec, mas tão pouco é para Emmanuel.  

Agora, por uma questão de "coerência com a honestidade intelectual", é relevante citar uma definição de Emmanuel para religião:
“Sentimento divino, cujas exteriorizações são sempre o Amor, nas expressões mais sublimes”. (O Consolador, Questão 260) [6]
Ou outra, do livro ‘’Roteiro’’ [7]:
"Religião" é o princípio íntimo e universal de união com o Criador, enquanto as "religiões" são as organizações e sistemas criados pelos homens na Terra.
Tivesse o autor atentado para a última frase sobre as "organizações e sistemas criados pelos homens na Terra", ele não precisaria acusar Emmanuel de acreditar em "setores independentes e hierarquizados", como faz mais para frente em seu texto. Tais definições de Emmanuel não estão explícitas na obra de Kardec, mas seria preciso muita má vontade para achar que Kardec discordaria delas. Já na resposta à Questão 6 em "O Livro dos Espíritos", a resposta não deixa dúvida sobre onde está escrita a noção instintiva de Deus nos homens. 

No discurso de 1.º de novembro de 1868 (citado pelo autor em [1]), Kardec reafirma o aspecto religioso do Espiritismo no sentido do tríplice aspecto emergente. Pois é fato inconteste e, sim, doutrinário, que a prece é prática altamente recomendada. Ora, não é a prece uma "prática religiosa"? A importância que os Espíritos sérios dão à prece nos permite concluir o que podemos inferir por "aspecto religioso" do Espiritismo: a consciência que todos temos (encarnados ou desencarnados) de que há um Deus, proveniente de um sentimento inato, causa primária de todas as coisas, infinitamente bom, com o qual podemos entrar em contato por meio da prece, e da importância da "comunhão de pensamentos" (ao menos na prática da sessão mediúnica) etc. Neste ponto, seria até cansativo ficar a citar Kardec sobre isso.
As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa; pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que, por isto, sejam tomadas por assembléias religiosas. Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada idéia. [4]
É uma questão de palavras se chamamos isso de "religião" ou "religiosidade" (Kardec nunca usou esse termo, seria ele antidoutrinário?). Mas, o que podemos fazer se o povo, entretanto, não sabe distinguir essas sutilezas? O autor talvez se ressinta, com razão, do excesso de atenção e admiração que esse povo dá aos aspectos aparentemente "ritualísticos" de uma sessão espírita e que não saiba distinguir um centro espírita de uma igreja. Para a administração pública e tributária, a diferença também não existe (imaginemos que os centros espíritas tivessem que pagar impostos, como não fazem as igrejas, por uma questão de "pureza doutrinária"). De qualquer forma, essa confusão não se resolve acusando Emmanuel de "desvirtuamento doutrinário".

O autor fala como se "filosofia", "ciência" e "religião" fossem peças independentes que se podem adicionar ou tirar de um sistema de pensamento. Por isso, nesse ponto, é importante esclarecer nossos leitores da relação que existe entre "filosofia" e "religião", desde que se dispa essa última de quaisquer aspectos práticos ligados a rituais, hierarquia etc. 

O aspecto religioso do Espiritismo, relembrado por Emmanuel, liga-se ao seu aspecto "filosófico" em outro sentido: afirmando que existe um Deus, que ele é uno, que é causa primária de todas as coisas, que o sofrimento é passageiro, que há uma lei de compensações na vida espírita etc, o Espiritismo responde a dúvidas que são próprias da filosofia e da religião. Não por acaso tais questões (que chamamos doravante de "questões fundamentais da existência") são estudadas pela disciplina da Filosofia da Religião

Portanto, desde que o Espiritismo foi concebido, seu aspecto religioso já estava dado; não há como "separar" o aspecto religioso dos outros. Ele está vinculado às respostas que ele dá para as questões fundamentais da existência. Respostas para essas questões também foram dadas por outras doutrinas religiosas desde a origem do mundo. Como prática, é evidente que o Espiritismo (com Kardec) preceitua a prece e a comunhão de pensamento, resgatando a religião em sua definição original de "religação ou reconexão com Deus".
A diferença é substancial. Em Kardec, os aspectos correspondem ao processo de conhecimento e transformação. Em Emmanuel, aparecem como setores independentes e hierarquizados. A classificação kardequiana integra, enquanto o triângulo de Emmanuel separa.
Mas o que distingue o pensamento filosófico do religioso? Desde os antigos gregos, os filósofos se esforçam por responder às questões fundamentais por meio de debate "racional" e provas lógicas, fugindo de qualquer apelo "aos deuses" ou aos "dogmas".

A religião (no sentido antigo do termo) faz isso ao apelar à tradição, à autoridade de profetas e à fé. 

Ora, o Espiritismo não usa nada disso, mas responde a tais questões adicionando a opinião dos Espíritos à dos filósofos (para as questões que estão além das provas experimentais), além de invocar essas últimas provas para certas questões (por exemplo, a existência de vida após a morte). O Espiritismo pode fazer uso de "debate racional" como diriam alguns, porém não deixa de se escorar na opinião dos Espíritos.

A filosofia tem como método a análise intelectual e a inquirição.

Os métodos previstos no Espiritismo, além da análise, como prática são a prece e, como instrumento, a comunicação com os Espíritos.

Na filosofia, tudo o que é afirmado pode ser duvidado; não existem respostas críveis (pois é um sistema sem fé).

No Espiritismo, porém, a opinião dos Espíritos, de Kardec etc, é considerada autoridade (como faz o próprio autor). Isso, porém, pode ser inaceitável para filósofos.

Diante da nossa limitação sensorial e pequenez espiritual, talvez por isso Emmanuel insista tanto no aspecto religioso como caminho que nos faculte acelerar nossa marcha evolutiva, mas isso não às custas dos outros aspectos, pois eles não são excludentes, mas emergentes. Enfatizar o aspecto religioso jamais implica — como deseja muito concluir o autor — abandonar os outros.

No nosso entendimento, portanto, o autor tenta estabelecer uma separação entre Kardece e Emmanuel que não existe.
Religião, nesse contexto, não constitui um vértice. É o nome atribuído ao vínculo moral entre os adeptos.

Kardec usa o termo para descrever uma relação. Emmanuel o transforma em uma parte estrutural da Doutrina e lhe concede superioridade sobre as demais. A diferença não pode ser ocultada por uma metáfora geométrica.
Difícil saber por que o autor acha que "vínculo moral entre adeptos" seria a definição máxima dada por Kardec para a religião espírita. Seguindo a linha da "coerência com a honestidade intelectual", é relevante também citar (sublinhados são meus, sobrescritos aos de Kardec):
A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porquanto Deus não pode pretender a destruição de sua própria obra. A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de idéias provém apenas de uma observação defeituosa e de excesso de exclusivismo, de um lado e de outro. Daí um conflito que deu origem à incredulidade e à intolerância. [5]
Para quem sabe interpretar textos, dá para perceber que a semântica da palavra “religião” aqui é bem diferente daquela citada pelo autor anteriormente. Vejam que Kardec não só entendia a religião (nesse outro sentido) como "uma das alavancas da inteligência humana" (e não "vínculo moral entre adeptos"), mas também afirmou que ciência e religião se baseiam “no mesmo princípio que é Deus”. Porém, aqui ele nada fala em filosofia (isso não quer dizer que o aspecto filosófico esteja ausente!). O que Kardec declara é inaceitável para filósofos e cientistas, mas está de acordo com Emmanuel.

Portanto, uma das conclusões do autor:
Em Kardec, observação, raciocínio e consequência moral constituem um processo coerente. Em Emmanuel, ciência e filosofia são rebaixadas para que a religião ocupe o vértice superior.
Não tem cabimento. Mas ele continua:
Também é incoerente afirmar que ciência e filosofia vinculam o Espiritismo à Terra, enquanto somente a religião o ligaria ao céu. A ciência espírita tem como objeto a existência dos Espíritos, suas manifestações e suas relações com o mundo corporal. Seu campo de estudo não está restrito à matéria. A filosofia espírita examina a imortalidade, a reencarnação, o progresso do Espírito, a responsabilidade moral e a justiça divina. Seu alcance não é menos espiritual do que aquilo que Emmanuel denomina religião.
Deus está tão distante da realidade dos Espíritos (ainda mais os inferiores da Terra) que sua existência não é resolvida com a morte. Não é porque um ateu desencarnou que ele se torna automaticamente crente em Deus. Esse não o obriga a crer Nele. No sentido filosófico, é possível acreditar em quase tudo no Espiritismo sem se acreditar em Deus. 

Daí a relevância do conceito de Emmanuel (que, como vimos, também está em Kardec) de religião como "princípio íntimo e universal de união com o Criador". 

No Espiritismo, continuamos a acreditar em Deus por princípio (outros diriam, por meio da fé...), visto que sua existência não pode ser provada (p. ex., como no caso da comunicação dos Espíritos, continuidade da consciência após a morte etc). Sua existência foi declarada inicialmente a partir da opinião dos Espíritos, mas se tornou um princípio sem prova. 

Um outro exemplo de princípio é a reencarnação (que, em uma das obras de Kardec é chamada de "belo dogma"). Quais são as evidências de sua existência além da opinião dos Espíritos? Na época de Kardec, estávamos ainda longe das investigações das "crianças que se lembram de vidas passadas", mas opiniões de crianças não passam pelo "critério da concordância universal". Inquiram-se multidões de Espíritos inferiores e eles dirão que reencarnação não existe, porque não se lembram de nada além da última vida.

Na filosofia, quaisquer desses princípios são questionáveis; no Espiritismo, não — e é isso que, afinal de contas, quer dizer Emmanuel. Portanto, não vejo em que elevar o "princípio íntimo e universal de união com Deus" me torne menos espírita ou me faça esquecer de toda filosofia e ciência espíritas. 

Conclusão

O raciocínio do autor se baseia no critério da autoridade: Kardec tem mais autoridade do que qualquer outro autor. É por isso que ele se implica com uma suposta "autoridade" de Emmanuel sobre Kardec (mas poderia ser qualquer outro autor). Esse tipo de raciocínio dá a impressão de que o Espiritismo não tem valor como doutrina em si, mas porque Kardec é seu proponente.

Disso segue que toda e qualquer descoberta, afirmação ou fato novo descoberto em matéria de Espiritismo tem que passar pelo "crivo de Kardec" antes. Mas isso significa que tal afirmação, fato ou fato novo tem que ter sido citado explicitamente por Kardec. Se não está visivelmente nos textos de Kardec, tal coisa é considerada "antidoutrinária". Além disso, a Kardec sequer é dado o direito de errar!

A parte "religiosa" de qualquer doutrina se liga à questão da existência de Deus e de seu conceito. Kardec, tal como Emmanuel, aceita a existência de Deus e da reencarnação e, por isso, o Espiritismo tem um aspecto religioso, o que não acontece na ciência, que tem apenas o aspecto filosófico nos seus pressupostos metafísicos que, inclusive, não incluem a ideia de Deus. 

O aspecto religioso é fundamental para entender por que não se pode conceber o Espiritismo como mais uma ciência e mais uma filosofia. Mas, por outro lado, o Espiritismo também não é mais uma religião.

Portanto, a tal "separação" ou "rebaixamento" atribuídos por Emmanuel pelo autor do artigo [1] não existem. O suposto "problema conceitual e doutrinário" associado ao "tríplice aspecto" também não existe.

Certamente, porém, filósofos ou cientistas ateus concordariam muito com o autor em enfatizar o aspecto "científico e filosófico" (talvez pela crença na superioridade da isenção da fé), muito mais do que qualquer aspecto religioso. Aliás, eles concordariam em tirar do Espiritismo tudo que fosse baseado na opinião dos Espíritos (visto que são apenas opiniões, iguais às dos "deuses") e deixariam apenas a parte ligada à mediunidade, talvez. O Evangelho Segundo o Espiritismo seria provavelmente o primeiro livro de Kardec a ser banido.

O prestígio de qualquer autor (inclusive Kardec) não elimina a possibilidade de erro. No Espiritismo também vale o famoso aforismo atribuído à Aristóteles:
Amicus Plato, sed magis amicus veritas.
Somos amigos de Platão, mas muito mais amigos da verdade. Entretanto, essa mesma verdade exige que nosso pensamento seja fundamentado em algo além de evidências ou opinião de autores, tendo em vista que somos criaturas ainda limitadas. 

Nisso, a religião está coberta de razão.

Figura: Estudos sobre o tríplice aspecto não são exclusivos do Espiritismo. Ver [3] para uma referência recente sobre o assunto.
 
Referências


[2] Revista Espírita, Dezembro de 1864, "Da comunhão do pensamento", "A propósito da comemoração dos mortos".


[4] Revista Espírita, Dezembro de 1868, Discurso de abertura pelo Sr. Allan Kardec.

[5] O Evangelho Segundo o Espiritismo,Capítulo I, item 8.



[8] S. S. Chibeni. "O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso". Disponível em https://www.geeu.net.br/artigos/tripliceaspecto.pdf


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