Sobre o Critério da Concordância Universal

A escada de Jacó (~1800). William Blake.

Imagine um viajante estrangeiro que descreve um novo país aos seus parentes distantes. Embora ele possa retratar a aparência do lugar com facilidade (pois tem órgãos sensíveis para isso), se ele pretende detalhar outros aspectos -- por exemplo, quais são as leis que governam seus habitantes? -- terá dificuldades. Ainda que seja possível inquirir seus habitantes sobre essas leis, o que o viajante obterá serão opiniões mais ou menos homogêneas, nas quais os detalhes não concordarão provavelmente. O visitante terá mais sucesso se consultar especialistas, ou as autoridades nacionais no assunto, do que populares, tanto no que concerne às leis como a outros assuntos (ciências cultivadas, história do país etc).

Esse é um paralelo com a aquisição do "conhecimento espírita", ou seja, informação relativa aos processos, acontecimentos, relações e fatos presentes e anteriores no mundo dos Espíritos. 

Os cinco tipos de informação espírita possíveis

Antes de responder sobre como é possível obter informação do mundo dos Espíritos com segurança, importa distinguir os tipos possíveis de informação relacionadas a esses aspectos do conhecimento espírita. Podemos dividir em cinco esses tipos:

1) Informação relacionada à dinâmica da mediunidade: pela observação e análise de sua ocorrência, colhida de sessões com um ou muitos médiuns ou pela observação dos fenômenos espontâneos;

2) Informação relacionada à natureza psicológica: da interação entre o perispírito e o corpo físico em diferentes estados, bem como à persistência da memória com a conservação da consciência.

3) Informação de caráter pessoal, de conteúdo manifesto ou latente, em mensagens particulares entre encarnados e desencarnados;

4) Informação sobre a relação que existe entre os Espíritos, desses com os encarnados e dos Espíritos com Deus;

5) Informação sobre aspectos aparentes (como eles aparecem ao observador) do mundo espírita (o que chamaríamos de "descrições da matéria periespiritual").

O tipo 1 está relacionado à fenomenologia mediúnica ou anímica. Nesses casos, os Espíritos, embora sejam a causa dos fenômenos, podem ou não manifestar um conteúdo. Exemplo: nos fenômenos de efeitos físicos do tipo poltergeist, que parecem ocorrer de forma aleatória, sem um conteúdo de mensagem. 

A informação do tipo 2 pode não envolver necessariamente Espíritos desencarnados. Um exemplo são as memórias descritas por crianças que descrevem vidas passadas. 

O tipo 3 pode tanto fazer uso de psicografias como de psicofonias, para transferir informação dirigida a membros específicos de famílias, sobre acontecimento ou estado psicológico de seu autor depois da morte. 

O tipo 4 descreve as relações entre os Espíritos, p. ex., as consequências dos atos praticados durante a vida corpórea no estado presente de um Espírito desencarnado. Esse tipo envolve também as questões morais.

Finalmente, o tipo 5 está sujeito ao grau de sensibilidade ou capacidade do espírito em captar os sinais do mundo espiritual, que pode não ser o mesmo para todos os Espíritos. P. ex.: descrição de cidades, de ambientes, de coisas tangíveis, fluidos etc.

O Critério da Concordância Universal

A referência principal de Kardec sobre o chamado Critério da Concordância Universal (CCU) é a II Parte ou "Autoridade da Doutrina Espírita" da Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE, 1) com título "Controle universal do ensino dos Espíritos". Na Revue Spirite de abril de 1864, o artigo "Controle universal do ensino dos Espíritos"  trata do mesmo assunto. No que vai abaixo, considera-se o texto da Introdução do ESE [1], na sua sequência de parágrafos.

Para Kardec, a fonte primária da informação espírita são os Espíritos. É possível livremente criar sistemas ou teorias que fundamentam explicações para os fatos espíritas a partir dessas informações. A teoria que Kardec desenvolveu é a "ciência espírita", que constitui um arcabouço de princípios interligados que explicam de forma lógica esses fatos. Porém, nas ciências naturais, a validação dos dados vem dos experimentos. Pela estrutura da lógica interna de uma teoria, explicações ou novas proposição experimentais podem ser derivadas. Na ciência espírita, os dados provêm de diversas fontes, porém, não se pode excluir os Espíritos, eles mesmos, provedores de opiniões ou explicações para esses fatos. Assim, o que apoia a ciência espírita não são apenas fatos, mas também essas opiniões, tendo em vista que os Espíritos são seres inteligentes que podem livremente propor sistemas ou teorias

Portanto, há que se distinguir entre a validade das descrições dos fatos da validade da opinião dos Espíritos sobre esses fatos. Com relação a essa última:

Uma só garantia séria existe para os ensinos dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. (Parágrafo IX, todo o parágrafo grifado por Kardec, grifos aqui meus.)

Isso considerando que, do ponto de vista prático, a mediunidade pode ser aplicada tanto por meio de um médium como de vários:

Um homem pode ser enganado, pode mesmo enganar-se, mas assim não poderia ser quando milhões de homens veem e ouvem a mesma coisa. É uma garantia para cada um e para todos. Ademais, pode-se fazer um homem desaparecer, mas não se pode fazer desaparecerem as massas; pode-se queimar livros, mas não se pode queimar os Espíritos. (Parágrafo II)

Se se dispõe de um só médium, há limitação devido à cultura (o ambiente cultural próprio dele) e provável prevenção universal contra uma única fonte. Assim, o CCU exige que eventuais novas teorias  sejam implicadas (ou propostas) não somente por um, mas por vários Espíritos, bem como por muitos médiuns. E isso é o que se chama "universalidade do ensino dos Espíritos". 

No paralelo do viajante, seria como exigir que não apenas um viajante, mas vários deles enviassem informações e se criasse, a partir disso, um quadro ou imagem das crenças, leis ou histórias reportadas. Da concordância entre vários relatos distintos de viajantes, que consultaram inúmeras fontes, seria possível propor uma imagem válida e crível do novo país.

Enfatizamos as várias referências no texto de Kardec às teorias. No parágrafo X:

Se, portanto, aprouver a um Espírito formular um sistema excêntrico, baseado unicamente nas suas ideias e com exclusão da verdade, pode ter-se certeza de que tal sistema conservar-se-á circunscrito e cairá, diante das instruções dadas de todas as partes, conforme os múltiplos exemplos que já se conhecem. (Parágrafo XI, grifos meus)

A principal preocupação de Kardec (e também dos Espíritos) era com o desvirtuamento, amputação ou fragmentação da teoria espírita nos princípios que a estruturam como uma verdadeira ciência. Afinal de contas, se Kardec desenvolveu uma teoria, abre-se o caminho para qualquer um, encarnado ou não, criar a sua própria. Uma segunda preocupação seria como fazer avançar a teoria espírita. Tendo em vista o "caráter progressista" do conhecimento espírita, que precisa evoluir, seria necessário estabelecer alguns critérios sobre como novos princípios são incorporados à teoria. Por isso, no parágrafo VII, Kardec estabelece algumas condições para novas contribuições:

Toda teoria em manifesta contradição com o bom-senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, deve ser rejeitada, por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura. (Parágrafo VII, grifo meu)

Em suma: uma nova proposta deve se alinhar ao bom-senso, à lógica (rigorosa) e aos fatos. Considerando os cinco tipos de informação (dados) descritos anteriormente e a distinção entre fatos e teorias, analisamos agora a relação do CCU com esses dados.

a) O CCU se aplica a todos os tipos de informação?

Não é possível aplicar o CCU sem referência à teoria (da ciência) espírita. É certo que os Espíritos podem fornecer informações sobre acontecimentos ou fenômenos relacionados a todos os cinco tipos. Porém, qualquer nova teoria terá que se adequar aos fatos, não só reportados pelos Espíritos anteriormente, mas também colhidos de outras fontes.

Parece evidente que a informação do tipo 2 é a mais independente da mediunidade. Esse é o caso das recordações de vidas passadas, das descrições dos fenômenos de quase-morte (NDE - near death experiences) e das visões de leito de morte (DBV - deathbed visions). Além disso, no tipo 2 também entram os fenômenos puramente anímicos, aqueles descritos por médiuns usando suas faculdades, aparentemente sem o concurso dos Espíritos. (p. ex., a psicometria).  

É necessário agrupar o que há de homogêneo ou concordante entre as diferentes descrições, feitas tanto por pessoas como pelos médiuns independentes, mas não pelos Espíritos necessariamente

Por exemplo, nas DBVs (que foram registradas desde a época de Kardec), os moribundos descrevem visitas de pessoas falecidas -- conhecidas ou não. Eles nunca se referem à pessoas vivas. Portanto, resta evidente que há uma concordância com relação à possibilidade de Espíritos visitarem pessoas próximas da morte. Nas descrições psicométricas, pode haver concordância com relação à informação extraída de determinado ambiente, objeto etc. 

Por outro lado, nas informações do tipo 4, o apoio de especialistas é necessário. Nem sempre os Espíritos em desequilíbrio após a morte serão fontes confiáveis de informação. O que Espírito vê, ouve ou sente depende de seu estado psicológico. Eles serão confiáveis, porém, se o que descreverem for acompanhado de informação de contexto que provém, em última análise, da teoria. São inúmeros os artigos na Revue Spirite em que os orientadores de Kardec primeiro explicaram esse contexto para depois sugerir a Kardec inquir os próprios Espíritos envolvidos.

Nas informações do tipo 3, não parece razoável exigir concordância universal, nem mesmo que ela seja provida por mais de um médium. Os fatos reportados apenas apoiam o princípio da sobrevivência. No parágrafo IX, Kardec já alertou que:

Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que respeita aos princípios mesmo da doutrina. (Parágrafo IX, grifos meus)

O que reforça o caráter "alto nível" do CCU -- ele se refere à teorias, princípios ou sistemas. Os sinais manifestos e latentes em uma comunicação particular podem servir para identificar seu autor desencarnado, informar sobre seu estado psicológico, atestar a qualidade da comunicação e do médium e nada mais. Mesmo assim, é possível que um mesmo emissor (Espírito) se manifeste a mais de um médium e forneça informações complementares de caráter particular.

b) O CCU pode ser aplicado de qualquer jeito?

Na analogia do viajante que busca informação sobre um país distante, é possível inquirir seus habitantes sobre costumes, coisas ou relações que lá existem. Porém, o viajante não pode se esquecer da limitação de conhecimento das fontes. O viajante precisa contar com especialistas que descrevam com maior exatidão o estado de coisas. Assim, para que o CCU funcione, é necessário que as fontes sejam confiáveis. 

Foi o que Kardec fez ao ter como orientadores o grupo de Espíritos que contribuiram para a codificação. Mas isso não agradou a muitos espiritualistas.  Ao se questionar de forma geral os Espíritos sobre a existência da reencarnação, por exemplo, a maioria afirmou (e ainda afirma) que ela não existe, pois eles não se lembram de vidas anteriores. Como pode ser isso? É que Kardec foi orientado pelos especialistas do mundo espiritual que a lembrança das vidas anteriores não é instantânea e nem uniforme em todos os Espíritos. 

Na ausência de fatos independentes, Kardec optou por apresentar a reencarnação como um dogma. Isso significa que se tratava de um princípio ou lei de caráter geral, não necessariamente apoiada na opinião universal dos Espíritos, por causa de suas limitações de memória. 

Assim, nossa primeira conclusão é que o CCU não pode ser aplicado de forma arbitrária: ele faz uso de certas premissas para que tenha validade como método, uma vez que, pelo exemplo do viajante, há que se obter informação de fontes confiáveis (dos especialistas). O tempo deu razão a Kardec, pois, acumularam-se os casos de pessoas (e. g., crianças sem memórias presentes formadas) que se lembram de vidas anteriores. 

c) O CCU apoia as descrições de cidades no Além? 

As descrições (que são fatos e não teorias) dos Espíritos sobre essas estruturas feitas de "matéria periespiritual" estão sujeitas a três tipos de filtros:

  • O mediúnico, considerando que os médiuns podem interferir nas mensagens recebidas;
  • O fato de nem todos os Espíritos estarem igualmente qualificados a servir de fonte para o mesmo conteúdo informativo: o grau de intensidade, alcance ou abrangência das faculdades sensoriais dos Espíritos depende do grau evolutivo em que eles se encontram;
  • A possível diversidade e variedade de estruturas no mundo espiritual.
Disso segue de forma simples que, se as fontes de informação são bem intencionadas, aptas e os médiuns bem desenvolvidos, pode-se confiar em algumas descrições, que não são, porém, generalizáveis a todos os possíveis lugares no mundo espiritual. Existem talvez centenas de mensagens mediúnicas que as reportam (ver As Colônias Espirituais e a Codificação de P. Neto, 2), de forma que rejeitar essas descrições atenta contra a existência de fatos, inclusive colhidos por meio de vários médiuns.

Por que Kardec não se referiu explicitamente a tais cidades em suas obras? Considerando seu aspecto secundário, ele entendeu que isso em nada acrescentaria à teoria espírita (não adicionam nem comprometem princípios), o que não se confunde com o caráter de verdade dessas descrições enquanto fatos. A relevância dada a tais descrições está ligada ao fascínio que os encarnados têm por elas (preocupações como "será que vou ter uma casa para morar depois da morte?"), em detrimento, as vezes, da importância que se deve dar aos princípios.

O CCU e a segmentação das fontes.

Portanto, Kardec aplicou o princípio de segmentação das fontes (o que é muito comum em muitas pesquisas modernas de análise de conteúdo). As opiniões dos Espíritos podem ser tomadas em seu conjunto, desde que partam de grupos homogêneos do ponto de vista do nível espiritual (ou, como chamado por Kardec, "classe de Espíritos"). Em outros termos, não é possível misturar as fontes. 

Kardec considerou a necessidade dos especialistas: apenas os Espírito superiores têm autoridade suficiente para prover explicações de acordo com uma teoria já estabelecida. Esse foi o caso da reencarnação: não é possível considerar indistintamente todos os Espíritos como fizeram os espiritualistas ingleses que, em parte por causa disso, rejeitaram a reencarnação como princípio.

Conclusões

É importante distinguir as explicações dos Espíritos das meras informações sobre a espiritualidade ou descrições de determinados fenômenos. Espíritos podem descrever bem um fato tal como se lhes parecem, sem  compreensão profunda dos mecanismos envolvidos. Ou seja, é possível desprezar a opinião de um Espírito sem jogar fora sua descrição de um fenômeno.

O CCU não pode ser aplicado de forma arbitrária. Exigir concordância com "todos os Espíritos" é equivalente à situação do viajor estrangeiro que considera sem ressalvas a opinião dos cidadão ignorantes das leis ou das ciências cultivadas no país que visita.

O CCU se apresenta como uma ferramenta ou método de validação de informação espírita, porém, ele só se aplica com referência à teoria espírita já estabelecida. O CCU se aplica a novos "sistemas" ou novas "teorias" eventualmente propostas, não a informações isoladas

A aplicação do CCU  (ou seja, considerar teorias alternativas propostas por Espíritos) depende:

  • Do grau de desenvolvimento do(s) médium(s) como instrumento(s). O uso de vário médiuns tem como objetivo justamente ponderar a variabilidade de informação adquirida por cada médium em particular ou torná-la independente do contexto de apenas um médium. 
  • Do grau de evolução dos Espíritos que servem como fonte: há que se considerar as limitações de sensibilidade, capacidade descritiva e, principalmente, intenção (compromisso com o bem) dos Espíritos que são fontes de informação. 
  • Algum tipo de consulta a especialistas é necessário, o que representa uma segmentação das fonte de informação. Ora, isso restringe o entendimento do "caráter universal" do critério: da "maioria dos Espíritos" para a "maioria dos Espíritas especialistas", sempre conforme a teoria estabelecida. 
É preciso assim atenção para entender corretamente tanto o objetivo de Kardec e dos Espíritos com a proposta do CCU, bem como suas condições de validade. A Natureza possui meios (como no tipo 2) de prover informação espírita, que são os próprios encarnados e suas "experiências espirituais", independentemente dos Espíritos e suas opiniões. 

Os Espíritos foram responsáveis por propagandear os princípios espíritas (existência de vida após a morte, comunicação, reencarnação etc) e, estabelecida uma teoria consistente, hoje é possível analisar essas experiências privadas com muito mais segurança, de forma a separar fato do que é provavelmente ficção. 

Uma questão prática que deixamos aos nossos leitores: seria possível reproduzir as condições que dispunha Kardec em sua época, de forma a aplicar o CCU hoje em dia?

Referências

1. A. Kardec (1991). O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104a Edição da FEB. Tradução de Guillon Ribeiro. Uma versão online para consulta é:
2. P. Neto (2015). As Colônias Espirituais e a Codificação.  1a Edição, Ethos Editora.

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