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| Dorothy L. Eady. Domínio público. |
Meu senhor Tmu, qual é a duração de minha vida? Existirás por eternidades de eternidades, a duração de anos sem fim. (~ 1550 a. C., "O Livro dos Mortos", Cap. CLXXV - Sobre não se morrer uma segunda morte no Além. [1])
Nascida na Inglaterra em 1904, Dorothy Louise Eady (1904-1981) passou por um evento crítico em sua vida com apenas três anos de idade. Ela caiu de uma escada e foi encontrada desfalecida por sua mãe que, prontamente, chamou um médico. Esse constatou a morte fulminante da menina. Ainda desesperados com o ocorrido, os pais e o médico observaram surpresos, ao retornar para pegar o "corpo", que a menina estava acordada. A partir daquela data, porém, ela passaria a ter um comportamento estranho, demonstrando grande dificuldade de convívio familiar. Dizia não pertencer àquela família e que queria voltar para casa.
A situação mudou novamente quando, aos quatro anos de idade, seu pai a levou ao Museu Britânico. Lá, a família percorreu as diversas galerias, onde a atenção da menina foi hipnotizada pela exibição egípcia. Desprendendo-se da mão de sua mãe, Caroline, beijou os pés de todas as estátuas egípcias em exibição e, finalmente, dizia ter encontrado seus parentes.
Durante toda sua existência posterior, Dorothy Eady foi acompanhada de memórias que a levaram a um passado remoto, ainda no reinado do faraó
Seti I (1294 a. C - 1279 a.C, Fig. 1) da chamada 19a Dinastia. Esse faraó se notabilizou pela construção do
Templo de Abidos (Fig. 2), uma espécie de necrópole e importante centro religioso para o culto de Osíris (deus dos mortos).
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Fig. 1 Desenho representando Seti I (Tebas). Domínio Público. |
Por volta de 1918, ela teve um sonho ou pesadelo com uma figura estranha que identificou em uma fotografia que vira da múmia de Seti I. A partir desse evento, passou a ter lembranças de uma existência pregressa no Egito em que era perseguida por uma causa relacionada a esse faraó.
Abraçou a causa da independência do Egito do julgo britânico e casou-se com um egípcio que deu a ela a chance de ir viver na terra que tanto amava como a Sra. Bulbul Abdel Meguid. Aprendeu árabe e passou a colaborar com inúmeros pesquisadores egiptólogos na década de 1930. Seu filho foi chamado Seti, em homenagem ao faraó e, por isso, ficou conhecida mundialmente como Omm Sety (a mãe de Seti). Foi depois de casada que Dorothy passou a apresentar o fenômeno de escrita inconsciente durante a noite:
Durante o segundo ano de casamento, ele (seu marido) acordava no meio de certas noites - geralmente quando a lua estava cheia - e observava, totalmente atônito e quase sem respirar, sua esposa "rouxinol" levantar-se da cama em uma espécie de estado semiconsciente, semitranse, e aparentemente flutuar até uma escrivaninha ao lado da janela, onde, à luz da lua, começava a escrever como se estivesse sendo ditada - algum tipo de mensagens hieroglíficas fragmentadas. [2]
Doroty descreveu seu estado como "bem inconsciente, como se sob a influência de um encantamento, nem acordada, nem dormindo". Diz ter recebido os escritos de uma entidade de nome Hor-Ra. Esse fenômeno durou várias noites. Doroty também afirmou que, enquanto escrevia, sabia o que estava sendo escrito, porém, esquecia tudo ao acordar. A psicografia era de um tipo de hieróglifo, porém cursiva. Foram 70 páginas que precisaram de um ano para serem terminadas e, com alguma dificuldade, traduzidas.
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| Fig. 2 Fachada do Templo de Seti I em Abidos (ou Abedju como chamado na época), finalizado por volta de 1300 a. C, onde Bentrechit viveu como sacerdotisa de Ìsis. Ver [4] para uma visita em vídeo a esse templo. |
Nelas Hor-Ra narrou a história de Bentrechit (ou "A harpa da alegria"), nascida de pais de origem humilíssima. Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos de idade e seu pai, soldado transferido para Tebas, teve que deixá-la aos cuidados de sacerdotisas do tempo de Kom El Sultan, ao norte do então templo de Seti em construção, na idade de três anos. Aos doze anos, escolheu permanecer no templo, onde foi consagrada a Ísis e Osíris e permaneceu virgem. Entretanto, ela conheceu o faraó Seti I, com quem teve um caso amoroso. Ao ser descoberta pelos sacerdotes do templo, seu drama atingiu um máximo, quando se suicidou diante da impossibilidade de ter seu segredo envolvendo o faraó revelado.
As lembranças das enormes colunas de Abidos (Fig. 3) começaram muito cedo em sua vida:
Quando Dorothy tinha sete anos, ela começou a entender (ou se lembrar) do que se tratava a imagem recorrente de seu sonho: o enorme edifício com suas colunas, o jardim e as árvores. Certa noite, seu pai chegou em casa depois do trabalho com algumas revistas. Enquanto estava deitada no chão, folheando distraidamente as páginas, Dorothy ficou subitamente fascinada por uma fotografia cuja legenda dizia: O Templo de Seti I em Abidos, Alto Egito. Era como se ela não conseguisse respirar. Agarrando a revista, ela correu até o pai e acenou com a foto na frente dele, gritando: "Esta é a minha casa! É aqui que eu morava!" Então, olhando mais fixamente para a foto, acrescentou tristemente: "Mas por que está tudo destruído? E onde está o jardim?" [2]
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| Fig. 3. Colunas do átrio do segundo hipostilo do Templo de Seti I numa imagem de 1880 (domínio público, museu Städel). Ver [4] para uma visita em vídeo a esse templo. |
Já em sua madureza, Dorothy foi viver em Abidos, no templo, e se tornou uma espécie de guardiã do lugar. Embora aceitasse as religiões locais, era, provavelmente, uma das únicas figuras da idade moderna que praticava ritos da antiga religião egípcia, realizando oferendas a Ísis, a sua deusa protetora [2]. Dorothy ajudou na interpretação de inúmeros rituais envolvendo as práticas descritas nas paredes do templo. Consta que ela antecipou a descoberta do jardim no templo [2], contradizendo a opinião de arqueólogos que estudavam o local e duvidavam de sua existência. Esse jardim foi posteriormente confirmado. Tudo acontecia como se Dorothy tivesse um "sexto sentido'' que a auxiliava no levantamento de informações e explicações associadas às descobertas em andamento.
Explicação espírita
É indubitável que Dorothy Eady exibe todas as características de uma médium com manifestações em estado sonambúlico. Durante esse estado, seu Espírito parcialmente desdobrado, ainda que no comando do corpo, podia receber mensagens do mundo espiritual. Sua mediunidade, porém, não foi usada de forma sistemática, no sentido de não ter sido empregada de forma ostensiva para comunicação. Era, provavelmente, uma médium eventual e intuitiva, embora seja possível que tenha recebido instrução diretamente dos Espíritos. O episódio de sua queda me lembrou muito outra narrativa do início da vida de Yvonne Pereira (1900-1984):
Tendo vindo ao mundo na noite de Natal, 24 de dezembro a 23 de Janeiro, durante um súbito acesso de tosse, em que sobreveio sufocação, fiquei como morta. Tudo indica que, em existência pretérita, eu morrera afogada por suicídio, e aquela sufocação, no primeiro mês do meu nascimento, nada mais seria que um dos muitos complexos que acompanham o Espírito do suicida, mesmo quando reencarnado, reminiscências mentais e vibratórias que o traumatizam por períodos longos, comumente. [3]
As semelhanças com a vida de Yvonne envolvem ainda um suicídio, cuja lembrança, no caso de Dorothy, parece ter se manifestado no episódio da catalepsia aos três anos de idade (uma coincidência com a idade de sua entrada no templo?). Tal como Yvonne Pereira e seu instrutor Charles, Dorothy se dizia acompanhada pelo Espírito de Seti I, provavelmente seu Espírito protetor, que ainda amava e com quem esperava se reencontrar depois da morte. Talvez Seti I tenha auxiliado o restauro do templo por meio de sua antiga Bentrechit, mostrando que os Espíritos ainda valorizam os lugares do passado, principalmente quando esses eram dedicados ao culto dos mortos e dos deuses no verdadeiro ideal do bem. Hoje, o templo pode ser visitado e é um impressionante exemplo da arquitetura egípcia sob Seti I [4].
Diferente de Yvonne Pereira, porém, e infelizmente, o meio em que foi criada não permitiu que ela se aprofundasse no estudo e compreensão de sua mediunidade. Ao invés disso, suas memórias de existência pregressa - particularmente focadas em uma vida no recuado tempo do faraó Seti I - não foram valorizadas na única visita que fez a um grupo espiritualista nos primeiros anos de sua vida adulta:
Por essa época, ela também consultou espiritualistas sobre seus sentimentos desconcertantes. Eles, repudiando a doutrina da reencarnação, sugeriram, em vez disso, que no momento de sua "morte", quando ela caiu da escada, um espírito ancestral possivelmente entrou em seu corpo e a possuiu. Incerta da explicação "verdadeira" de sua condição, Dorothy desistiu de perguntar o porquê e simplesmente concentrou sua energia em sua leitura e coleção de objetos egípcios. [2]
É preciso se lembrar de que o movimento espiritualista inglês era notadamente antirreencarnacionista até pouco antes do final do Século XX, quando as "crianças que se lembram de vidas passadas'' começaram a chamar a atenção para a reencarnação como um fenômeno e não mera crença. Hoje, os espiritualistas ingleses estão sendo obrigados a considerar a reencarnação, que foi claramente defendida por A. Kardec no Espiritismo, em oposição ao Spiritualisme que também se opunha a Kardec na França.
Da 19a. Dinastia até a Inglaterra do início do Século XX, 3200 anos se passaram. Não acreditamos, porém, que as memórias que Omm Sety atribuía à sua existência no Egito de Seti I eram as únicas. Por razões desconhecidas, essas memórias apenas se referiam a essa vida específica, sendo que podemos imaginar seu Espírito ter experimentado outras, nos períodos intermediários entre aquela e sua última encarnação.
Os sonhos recorrentes e o apego atávico a qualquer coisa ligada ao antigo Egito em sua infância demonstram que Dorothy nasceu não apenas para relembrar acontecimentos infelizes de uma vida anterior - provavelmente já resgatados - mas para auxiliar no levantamento das informações e da memória do Templo de Abidos. Sua história é fascinante e demonstra a universalidade da faculdade mediúnica, mesmo em contextos culturais em que o Espiritismo está ausente.
Referências
[1] P. Le Page Reouf & E. Naville (1904), The Egyptian Book of the Dead. Londres: The Society of Biblical Archeology.
[2] J. Cott. (1987). The Search for Omm Sety. Doubleday & Co, Inc.
[3] Y. Pereira (1992). Recordações da mediunidade. Ed. FEB.
[4] Temple of Seti I, Controlled Refractions, Youtube link: https://www.youtube.com/watch?v=fH3D6kt6it8 (acesso em março de 2026)
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