O que significa "Falar em línguas" segundo André Luiz.
Quem lê a Bíblia não deixa de se impressionar com a passagem de Atos 2:4 do Novo Testamento que descreve o chamado episódio do Pentecostes (1). O chamado "dom das línguas", também denominado "carisma da glossolalia" (2) é considerado uma capacidade ou "graça" que existiu entre os primeiros apóstolos como um "dom de Deus'' e que permitiu aos integrantes da igreja primitiva comunicarem a mensagem cristã a outros povos antigos. Alguns cristãos modernos (neopentecostais) acreditam que falar qualquer coisa em "línguas estranhas" comprovaria sua união com Deus, porque se estaria a falar a "línguas dos anjos". Entretanto, o que segue no citado capítulo de Atos do Apóstolos se refere a línguas humanas mesmo.
No livro Mecanismos da Mediunidade [1] aparece talvez uma das primeiras interpretações lúcidas para esse fato, conforme descrito pelo Espírito de André Luiz:
E, continuando-lhe o ministério, os apóstolos que se lhe mantiveram leais converteram-se em médiuns notáveis, no dia de Pentecostes (Atos, 2:1-13), quando, associadas as suas forças, por se acharem “todos reunidos”, os emissários espirituais do Senhor, através deles, produziram fenômenos físicos em grande cópia, como sinais luminosos e vozes diretas, inclusive fatos de psicofonia e xenoglossia, em que os ensinamentos do Evangelho foram ditados em várias línguas, simultaneamente, para os israelitas de procedências diversas. [1] Grifos nossos.
Assim, os espíritas devem ler Atos 2:4-13 como uma descrição antiga da presença ostensiva de mediunidade entre os apóstolos. Recentemente, em um interessante trabalho [2], C. Tibbs (2016) expõe a visão científica moderna desse trecho, que analisamos neste post. Ele faz isso em uma crítica a um outro trabalho de C. S. Keener [3] que também recomendamos a leitura.
A passagem de Atos 2:4 pode ser vista como mais um exemplo de episódio de "possessão'' entre os cristãos primitivos. Por "mais um episódio", quer-se dizer que é mais um na rica fenomenologia estudada pela antropologia moderna a respeito do fenômeno da "possessão espiritual". De fato, dois são os fenômenos antropológicos estudados modernamente e que podemos associar à mediunidade: os chamados "transes" e as "possessões" [4]. O transe é considerado um "estado alterado de consciência", enquanto "possessão" refere-se a uma crença culturalmente herdada.
Assim sumariza Tibbs as descobertas recentes na Antropologia:
Os antropólogos descobriram que a possessão espiritual se manifesta de duas formas, de acordo com a disposição do indivíduo possuído: (1) “possessão negativa”, que é caracterizada como “possessão involuntária” ou “possessão descontrolada”, porque o espírito possessor não é “bem-vindo” no corpo do indivíduo e, por essa razão, é interpretado como uma invasão por um espírito indesejado que, se não for devidamente expulso, pode causar danos físicos e mentais e doenças; e (2) “possessão positiva”, que é caracterizada como “possessão voluntária” ou “possessão controlada”, porque o espírito possessor é um guia espiritual, um espírito ancestral ou algum outro poder “superior” que atua como fonte de conhecimento supramundano e poderes de cura. Pessoas que vivenciam a possessão positiva não procuram ajuda psiquiátrica, enquanto aquelas que vivenciam a possessão negativa frequentemente o fazem. [2, p. 175]
Vê-se que o sentido da palavra "possessão" usada na Antropologia não é o mesmo do Espiritismo. Ora, é evidente que essas descobertas reforçam a ideia de mediunidade disseminada universalmente e, se aplicadas à passagem de Atos dos Apóstolos, confirmam o que disse André Luiz. A ligação com "possessões" é lembrada por Tibbs na passagem de Atos 19:13, que fala da existência de "judeus exorcistas", o que indica que os judeus do primeiro século estavam cientes da chamada "possessão demoníaca" (o primeiro caso listado por Tibbs acima). Neste ponto, também é relevante ressaltar que a palavra "demônio" tem origem no grego para "espírito" e, por um processo posterior de mudança de significado, ficou associada a supostas entidades inteiramente devotadas ao mal. Obviamente os antigos conheciam de forma precária o processo de comunicação mediúnica e, com a rejeição da cultura grega e romana na ascensão da versão romanizada do Cristianismo, o pouco que se conhecia se perdeu porque foi inteiramente banido.
Tibbs lembra a confusão entre os primeiros pais da Igreja sobre a questão da possessão espiritual:
Os primeiros pais da igreja estavam divididos sobre a questão da possessão espiritual. Em algumas ocasiões, a possessão invasiva por um espírito era interpretada como obra exclusiva de um espírito maligno. Por exemplo, o pai da igreja do século III, Orígenes, observou que a presença de um espírito era o principal sinal de que o espírito possessor era maligno. Segundo Orígenes, os bons espíritos influenciavam os seres humanos de fora; somente os espíritos malignos tomavam posse completa dos homens e os privavam de seu intelecto, como evidenciado pela amnésia subsequente do possuído. A amnésia da possessão, isto é, a incapacidade da pessoa possuída de se lembrar do que o espírito disse e fez enquanto estava possuída por ele, não era exclusiva dos endemoniados. Embora não seja encontrada no Novo Testamento, a amnésia da possessão é registrada por autores judeus, cristãos e greco-romanos como tendo ocorrido na presença de espíritos bons e maus. [2, p. 178]
Na verdade, reinava entre eles ignorância sobre como se dava o fenômeno mediúnico. Confundiam "obsessão" com "incorporação" ou mesmo "psicofonia". Hoje sabemos que não existe, de fato, uma "possessão", mas influência de natureza espiritual que não se caracteriza pela "posse" do corpo. O Espírito age sobre o sistema nervoso do médium que controla os movimentos, dando a ideia de "possessão". Também não é verdade, que o lembrar-se ou não da mensagem proferida não caracteriza o grau de "malignidade" do Espírito. Kardec descobriu que há médiuns que têm plena consciência do fenômeno de comunicação, enquanto que outros nada se lembram (ver O Livro dos Médiuns, item 188) e isso nada tem a ver com a natureza moral do Espírito. Além disso, hoje sabemos que não há entidades criadas desde o início devotadas ao mal e que os Espíritos nada mais são do que as almas dos homens que podem influenciar, para o bem ou para o mal, aqueles que ainda têm um corpo material.
Além do Novo Testamento, é preciso lembrar que existem outras fontes antigas que falam do fenômeno da "possessão divina". Essas fontes não são lidas por cristãos modernos, mas circulavam entre os cristãos primitivos, inclusive os de origem judaica. Tais fontes, assim, ajudam a melhor contextualizar a passagem de Atos 2:4 e apontam na direção do que escreveu André Luiz. Um exemplo é o "Liber Antiquitatum Biblicarum", ou um texto traduzido para o latim de um autor desconhecido, conhecido academicamente como "Pseudo Filo". Tibbs descreve essa texto como:
...bastante revelador quanto à evidência de possessão por um espírito divino. A elevação dos sentidos de Quenaz (extulit sensum eius) é o efeito de um espírito santo (spiritus sanctus) que vem ou salta sobre (insiluit) e habita em (habitans in) Quenaz. Como resultado, Quenaz começa a profetizar (prophetare). O espírito opera dentro dele para falar a uma audiência, isto é, Quenaz profetiza. [2, p. 178] Grifos nossos.
Portanto, a palavra "Espírito Santo" faz referência a uma classe de "possessão" de caráter divino (em sentido antropológico) e que acabou sendo descrita como outro tipo de "graça", conhecido como o dom das "profecias". Assim, "Espírito Santo" se refere a "Espíritos que vinham da parte de Deus" e não ao "Espírito do próprio Deus", como foi interpretado muito tempo depois. Ainda segundo Tibbs:
A transição da possessão como algo divino e demoníaco para algo exclusivamente demoníaco, como no caso de Orígenes, ocorre periodicamente ao longo da história. Apelos à possessão espiritual em termos negativos parecem ser uma interpretação cultural apenas de certos fenômenos de possessão. [2, p. 180]
ou seja, o termo "possessão demoníaca" se transformou em uma referência cultural que passou a designar qualquer tipo de influência e com a exclusão dos casos "divinos". É por isso que vamos encontrar cristãos em certas épocas que tudo consideravam como possessão demoníaca, enquanto outros viam casos de mensagens proferidas por espíritos "da parte de Deus" (spiritus sanctus) que tornavam seus intermediários "profetas".
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| Passagem de Atos 2 em grego. |
Finalmente, outra evidência de que o Pentecostes foi de fato uma manifestação mediúnica está nas inúmeras controvérsias que existiram entre os primeiros cristãos sobre qual seria a origem do espírito que se manifestava. Pois, já naquela época havia grupos que acusavam outros de receberem mensagens por "possessão demoníaca" (ou seja, de Espíritos enganadores), enquanto, nesses últimos, se acreditava tratar de verdadeiras profecias (de Espíritos que vinham "da parte de Deus"). E essa é a razão para a declaração encontrada em 1 João 4:1:
Amados, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram ao mundo. (Trad. "A Bíblia de Jerusalém")
Sabendo que os "profetas" eram aqueles que tinham o "dom da profecia", ou seja, a mediunidade (que não era conhecida nessa época com esse conceito), então resta evidente o problema da identificação da procedência das mensagens e a explicação de André Luiz. Segundo Tibbs:
De forma conclusiva:O Novo Testamento não fornece dados que possam contribuir para nossa compreensão de como os primeiros cristãos desmascaravam espíritos enganadores. Seria possível que, disfarçando-se de espírito santo, um espírito maligno pudesse falar bem de Jesus por meio de um profeta? Se sim, como o espírito enganador era reconhecido e desmascarado nesses casos? Os primeiros autores cristãos expressaram uma crença em possíveis falsificações das mensagens por parte de Deus que resultaram em um conflito entre profecias verdadeiras e falsas profecias [2, p.192]
Em última análise, parece que não havia um método infalível para discernir espíritos portadores da verdade de espíritos falsos. Além disso, a possessão divina voluntária e a possessão demoníaca voluntária manifestavam sintomas idênticos que, para o olhar destreinado, podiam ser interpretados de maneiras diferentes, boas ou ruins. Não havia absolutismo quando profetas inspirados falavam. Assim como com rádios, pode-se receber um sinal claro em uma sessão, mas em outra, o sinal pode ser perdido por interferência ou ficar estático, e outra estação pode vazar claramente em algumas ocasiões. A analogia com verdadeiros e falsos profetas não é tão descabida: os profetas eram "condutores" ou "antenas" para diferentes espíritos, dependendo da vida e da atitude do profeta. A precariedade com que alguns viam e entendiam a possessão espiritual pode ter contribuído para o declínio da mediunidade divina entre os cristãos. [2, p. 194]
Maior comparação com o fenômeno mediúnico não pode ser feita. É provável que as dificuldades em se identificar a origem dos Espíritos tenham se tornado um problema no Cristianismo quando os primeiros Apóstolos morreram e deixaram de influenciar o movimento. Nesse sentido, quanto mais os cristãos se afastaram da origem ligada a Jesus, tanto mais nebulosas se tornaram as mensagens e as misturas que passaram a circular nos meios cristãos, ainda mais quando esses finalmente conseguiram converter (ou seria "se adaptar"?) ao poderio político de Roma. A partir desse instante, o fenômeno mediúnico passou a ser visto com desconfiança: tudo tinha origem nos demônios e as vozes proféticas emudeceram em seu seio, porém, não para todo o sempre.
Origem das palavras
(1) Pentecostes. Do grego πεντηκοστή (pentekosté) para a festa do "quinquagésimo" dia depois da Páscoa.
(2) Carisma: do grego χάρισμα (karisma), que significa "favor," "graça" or "dom divino"; Glossolalia: do grego γλῶσσα (glossa) para "língua" e λαλιά (lalia) para "falar" ou "conversar".
Referências
[1] Xavier F. C. e Vieira W. Mecanismos da Mediunidade. Ed. FEB. Versão disponível para download: https://www.oconsolador.com.br/linkfixo/bibliotecavirtual/chicoxavier/mecanismosdamediunidade.pdf
[2] Tibbs, C. (2016). Mediumistic Divine Possession among Early Christians: A Response to Craig S. Keener’s “Spirit Possession as a Cross-cultural Experience”. Bulletin for Biblical Research, 26(2), 173-194.
[4] Halperin, D. (1996). Trance and possession: Are they the same? Transcultural psychiatric research review, 33(1), 33-41.


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