Uma paráfrase para o 2 de abril

O semeador e o pregador é nome; 
o que semeia e o que prega é ação; 
e as ações são as que dão o ser ao pregador. 
Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; 
as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo.
Padre Vieira, [1] IV

Entre o semeador e o que semeia há muita diferença: uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador, e outra, o que semeia; uma coisa é o pregador e outra, o que prega. 

Há muita diferença entre fazer e denominar-se a si mesmo de fazedor. Não bastam palavras, há que se ter exemplos.

Uma paráfrase

Pode-se fazer um paralelo entre o exemplo e a pretensão, invocando o famoso Sermão da Sexagésima do Padre Vieira [1], que apresentou argumentos para explicar as dificuldades pelas quais passavam os oradores católicos em seu tempo (1655). Talvez esse exemplo sirva a qualquer contexto religioso ou moral; entretanto, aqui nos apropriamos dele por meio de uma paráfrase para enaltecer o exemplo de Chico Xavier nesta data que comemora o seu aniversário: 

«Sabem, expositores espíritas, por que fazem pouco abalo as vossas palestras? - Porque não falam para a mente e para os olhos, só aos ouvidos. Como conseguiu Chico atrair tantos para o Espiritismo? Porque, assim como as palavras ensinadas pelos Espíritos por meio dele, o seu exemplo enchia os olhos. Por ele as palavras dos Espíritos ensinavam paciência e resignação, e seu exemplo clamava: Ecce Homo - eis aqui o homem que é o próprio retrato da paciência e da resignação na lide pública. As mensagens dos Espíritos pediam amor e caridade, e o exemplo de Chico bradava: Ecce Homo - eis aqui o homem que sai de seu conforto doméstico para atender à sopa humilde, à distribuição de víveres básicos e à conversação com os sofredores por décadas a fio. Os textos dos Espíritos pediam modéstia e simplicidade nas exposições do Espiritismo e condenavam a soberba e a vaidade; e o seu exemplo clamava: Ecce Homo - Eis aqui está o homem que fala em linguagem descomplicada, mas bem articulada, um simples médium a serviço de todos. As mensagens dos Espíritos e de Kardec pediam Espiritismo com Jesus, sem atavios de intelectualidade abafante, e o exemplo de Chico bradava: Ecce Homo - eis aqui o homem que preferiu viver a prática espírita cristã em todos os instantes em que permaneceu conosco, sem se importar com a política do momento, que passou e ninguém mais se lembra.»

Talvez seja mesmo muito difícil imitar tal exemplo. Mas é ainda Padre Vieira quem nos convida a uma reflexão final:

Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, 
se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, 
se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?

Referências

[1] Texto original do Sermão da Sexagésima de Padre Vieira sobre João Batista, na parte IV:

Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? — Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? — Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» — e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. 

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