29 de maio de 2017

O dilema da mamãe cervo


Em uma floresta, uma mãe cervo está para dar a luz. Ela encontra um campo próximo com alguns arbustos, próximo a um rio caudaloso. Aquele parece ser um lugar seguro. 

De repente, ela percebe que começou o trabalho de parto. No mesmo instante, nuvens escuras cobrem o céu e relâmpagos poderosos cruzam os ares anunciando tempestade iminente. Um deles põe fogo em uma mata próxima, iniciando um incêndio de dimensões desconhecidas...

Para a surpresa da mãe cervo, um caçador prepara uma flecha para lançar em sua direção. Não muito distante do outro lado, a mamãe cervo divisa um leão faminto que certamente busca sua caça. 

O que pode a pobre mãe cervo fazer? Ela vai dar a luz! Seu filhote sobreviverá ? Ambos sobreviverão? Serão presas do caçador ou do leão? Morrerão todos queimados no incêndio?

O que a mãe cervo deve fazer? Para onde fugir?

Em meio a tantos perigos, ela escolhe dar a luz a uma nova vida...

E então, um relâmpago cai próximo ao caçador que foge assustado, sua flecha disparada passa pela mãe cervo e atinge o leão faminto. Uma chuva intensa começa a cair que acaba com o incêndio...

Nasce em segurança um pequeno e saudável filhote.

Assim é na existência de todos nós. Existem momentos de escolha quando somos confrontados de todos os lados pelos mais negativos pensamentos e ameaças. Nossa prioridade deve ser fazer aquilo que está a nosso alcance e o resto confiar à Divina Providência. 

Referência

"The pregnant deer - A beatiful managment story", disponibilizado por Parushu Ram. (via Linkedin)

16 de abril de 2017

A mediunidade de Fernando Ben


A psicografia como fenômeno é de extraordinária versatilidade. No dizer de Kardec:
De todos os meios de comunicação é a escrita o mais simples, o mais cômodo e, so­bretudo, o mais completo. É para ela que devem tender todos os esforços, pois que per­mite estabelecer com os Espíritos relações tão continuadas e tão regulares quanto as que existem entre nós.
Acredito mesmo que essa versatilidade da psicografia ainda está por se revelar por completo. A prova disso foi a enorme quantidade de informação proveniente de desencarnados por meio de psicografia exercida por médiuns veteranos como Chico Xavier e Divaldo Franco. Se outros tipos de mediunidade quase que desapareceram (como é o caso da mediunidade de efeitos físicos, materializações etc), semelhante situação não aconteceu com a psicografia, cumprindo a esperança de Kardec. Esse também é o caso do médium Fernando Ben.

Fernando Ben (à direita) com Divaldo Franco.
Natural de Olinda (Pernanbuco), Fernando Ben vive no Estado do Rio de Janeiro. As principais informações sobre o trabalho com cartas psicografadas pode ser encontrado no site "Cartas de Fátima" (2), tal como o cronograma de sessões públicas, onde não menos de 500 pessoas as vezes aguardam pacientemente por uma notícia de um parente desencarnado. A leitura de alguma dessas cartas pode ser assistida em videos no youtube (3) que trazem depoimentos de parentes surpresos com as comunicações. De acordo com Ben, todo o trabalho é coordenado por uma entidade de nome Fátima, que organiza e acompanha a realização das psicografias, dai o nome "Cartas de Fátima".

Exemplos

A carta de João Fernando Maciel (4), em uma comunicação obtida a 21 de dezembro de 2015, ilustra uma  variação da linguagem frequentemente encontrada nas cartas:
Ser-me-ia insignificante gastar essas linhas com proselitismo ou palavras sem análise mais profunda. Ser-me-ia, também, infrutífero apenas focar meu lembrete em palavras formais par meus saudosos familiares.  
Aproveito o tempo dado, apenas informando: a morte é mal compreendida, porque estou morto e falo, e não sou anjo, nem sou demônio, sou eu, indicando pautas nos jornais desta terra bem populada que hoje vivo. Apenas sou eu, sorrindo e tocando de leve minha barba branca.
Como propriamente identificado pelos familiares, seu autor era ligado às letras, dai seu estilo algo poético, um traço reconhecido de sua personalidade.

As informações transmitidas não se restringem a essas. A maior parte das cartas traz mensagens de pessoas comuns, falecidas recentemente, "gente como a gente" e, justamente por isso exigem contextualização para serem compreendidas. São missivas compostas por alguns parágrafos, onde abundam citações de nomes (são comuns cartas com dezenas deles), além de informação que só faz sentidos para os familiares mais íntimos.

Pedro Macedo Storani (5), em alguns trechos de sua carta afirma:
Vi na música uma grande válvula de escape e prazer, não só nas que ouvia, mas principalmente nas que me envolvia na bateria. 
Hoje não é o pretenso e futuro advogado, e nem o publicitário que esmera novos voos, mas o Pedro que reconhece pelo simples fato que a vida não cessa. 
Voltei a ser magro, me enchi de ser gordinho. Tô ai, tô do lado do Vasco...
o que permitiu aos pais identificar perfeitamente a personalidade do filho no seu interesse pela música, seus planos profissionais, seu estado pregresso de saúde e até time de futebol preferido.

Guilherme H. Shiroky (6) em alguns trechos de sua carta diz:
Perdoa mãe pelo dia 27 de fevereiro...Peço que o querido Martin me entenda também... Um beijo mais que especial para o orgulho do mano, a doutora dentista, Priscila Raquel. 
A expressão "orgulho do mano" era usado pelo falecido, segundo sua mãe, para referir-se a sua irmã, também citada na carta e constitui uma verdadeira assinatura de identificação.

Um caso que repercutiu na mídia foi uma psicografia de Rian Brito (7, 8), que faleceu em circunstâncias algo misteriosas e foi amplamente noticiada. Em alguns trechos de sua missiva endereçada à mãe, Márcia Brito, pode-se ler:

Sou o seu filho vivo, perplexo pela nova realidade, mas feliz por constatar que muito do que já pensava é real. Mãe, continue sua luta sem medo. Pois a discussão tem feito muitas pessoas pensarem, mas também não se iluda, mãe amada, toda proibição estimula.
Peço que continue, aprimore e transcenda nesta proposta de conscientização. Mas sempre lembrando que ao pedir para proibir, se aceito esse pedido, muitos vão usar a Ayahuasca, pelo próprio fato de ser proibido.
O autor refere-se a crença da mãe sobre a vida após a morte no "muito do que já pensava é real". Sua mãe também identifica seu filho na maneira como escreve e na citação de seu envolvimento com uma campanha de conscientização do uso da erva Ayahuasca.

A opinião da crítica

Como não poderia deixar de acontecer com fenômenos considerados extraordinários, a atividade do Fernando Ben parece incomodar algumas pessoas. Há os que insistem em afirmar que as informações são forjadas, outros desclassificam os fatos, pretendendo saber mais do que os parentes destinatários das cartas, que declaram nunca ter trocado qualquer tipo de informação com o médium.

Desprezo pelas realidades espíritas e até uma certa inveja da faculdade do médium são causas mais que naturais para essa crítica, mas a pior delas é certamente a preguiça em observar os fatos tais quais são.  De um crítico descuidado lemos:
todas essas cartas dizem praticamente a mesma coisa...parece que todas são tiradas de livros dessa doutrina...Transcenda não sei o que...gratidão a alguma coisa...aprimorar a consciência e um monte de palavras vazias que servem pra 99,9% das pessoas que perderam algum parente.
Como vimos, isso está longe de ser verdade, já que todas as cartas contém citações abundantes. De resto é compreensível que a informação transmitida pelo médium forme um substrato interpretado para agilizar o processo. Como é possível observar com outros médiuns psicógrafos, os autores que se comunicam não o fazem por capricho ou por frivolidades. O tempo de psicografia é compartilhado com inúmeros autores e serve a um propósito específico que é comum a todas as comunicações.

Números de telefone e CPFs informados levantam teorias de conspiração contra o médium. Ora, desde que os Espíritos mantêm sua individualidade, suas memórias, a citação de sequência de número é perfeitamente compreensível pela psicografia, devendo constituir até um fenômeno bastante comum.

Críticos precisam entender que as informações mais relevantes passadas nas cartas são justamente os conteúdos pragmáticos (ou seja, informação dependente do contexto), que apenas fazem sentido aos parentes mais próximos e que, portanto, não estão publicamente disponíveis. Em uma das cartas, entre inúmeras outras informações particulares, o autor declara seu local preferido de férias, o que, conclusivamente, apenas parentes mais próximos têm conhecimento. Em outro caso, o nome de um animal de estimação é citado, junto com dezenas de nomes de parentes. A abundância de informação dependente de contexto tais como nomes, citação de times de futebol, preferências, gostos, frases e descrição de comportamento formam  um conjunto relevante de identificação que desbanca as teorias conspiratórias e confirmam a excelência da psicografia de Fernando Ben.

A importância das cartas psicografadas particulares

Nunca será demais reler o que diz Kardec sobre a "utilidade das evocações particulares", que está no Capítulo 25 de "O Livro dos Médiuns" (1):
Ora, os Espíritos superiores são as sumidades do mundo espírita; a própria elevação em que se acham os coloca de tal modo acima de nós, que nos assusta a distância a que deles estamos. Espíritos mais burgueses (que se nos relevem esta expressão) nos tornam mais palpáveis as circunstâncias da nova existência em que se encontram. Neles, a ligação entre a vida corpórea e a vida espírita é mais íntima, compreendemo-la melhor, porque ela nos toca mais de perto. Aprendendo, com eles mesmos, em que se tornaram, o que pensam e o que experimentam os homens de todas as condições e de todos os caracteres, assim os de bem como os viciosos, os grandes e os pequenos, os ditosos e os desgraçados do século, numa palavra, os que viveram entre nós, os que vimos e conhecemos, os de quem conhecemos a vida real, as virtudes e as fraquezas, bem lhes compreendemos as alegrias e os sofrimentos, a umas e outros nos associamos e destes e daquelas tiramos um ensinamento moral, tanto mais proveitoso, quanto mais estreitas forem as nossas relações com eles. Mais facilmente nos pomos no lugar daquele que foi nosso igual, do que no de outro que apenas divisamos através da miragem de uma glória celestial. 
Há outro ponto importante que se formará, inexoravelmente, com o acúmulo de cartas. Dado que muitas delas trazem citação de uma dezena de nomes, seu histórico formará um grande registro de intercâmbio mediúnico, cujo objetivo é cumprir a função consoladora da Doutrina Espírita.

Sobre isso, lançamos mão de um paralelo. No primeiro episódio de "Harry Potter" de autoria da escritora Britânica J. K. Rowling, Harry, o personagem principal é convidado à iniciação como mago na escola de Hogwarts por meio de uma carta enviada em correio especial, usando corujas. Acontece que seus parentes invejosos interceptavam as missivas. Não foi uma nem dez cartas que foram interceptadas, na tentativa inútil de impedir que Harry seguisse seu destino. O contra ataque foi devastador: não apenas centenas, mas milhares de cartas foram enviadas a Harry, até que uma fosse lida por ele. Assim acontece com as cartas psicografadas particulares: se algumas cartas não são suficientes para convencer da realidade maior da vida após a morte, o que dizer de milhares delas? Nada poderá impedir que elas continuem a vir e prover consolação aos que choram seus entes queridos provisoriamente transferidos para o mais além...

Referência

1 -  A. Kardec. "Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas", Capítulo V – Dos médiuns, Médiuns escreventes ou psicógrafos. "O Livro dos Médiuns". Versão Ipeak, www.ipeak.com.br.
2 - http://www.cartasdefatima.com.br/ (Acesso em abril de 2017).
3 - https://www.youtube.com/user/difusorespirita
4 - https://www.youtube.com/watch?v=X9MKmCNHAH4
5 -
https://www.youtube.com/watch?v=eddmN8dAkwo&list=PLHvin5749nXzZjpMdLm-kWjRHP_0DTL9W
6 -
https://www.youtube.com/watch?v=em5yCL1OysU&list=PLHvin5749nXzZjpMdLm-kWjRHP_0DTL9W&index=21
7 - https://www.youtube.com/watch?v=Fr3ekc6kEgA


23 de março de 2017

Bhagavad Gita: alguns paralelos espíritas.

Para a proteção dos virtuosos, extirpação dos maus 
e estabelecimento da justiça em bases firmes, 
manifesto-me de tempos em tempos. (Bhagvad Gita, Cap. 4, 8)
Os espíritas que já tiveram algum contato com o texto do "Bhagvad Gita" (ou "A Canção do Senhor", 1) podem se surpreender com algumas referências ou interpretações que guardam paralelos com alguns ensinamentos do Espiritismo. De fato, essas semelhanças não são casuais e não se restringem à reencarnação. Nosso objetivo aqui é comentar algumas das passagens do Bhagavad Gita à luz do conhecimento espírita. Esses comentários sugerem que não são recentes os esforços de esclarecimento a respeito da realidade maior do Espírito. De tempos em tempos, uma "revelação", adaptada a cultura e modo de pensar de um povo, surge e se dissemina. Modificada por interpretações várias, ela torna a ressurgir, um pouco depois, para reafirmar a mesma coisa. 

Considerado um texto religioso, o Bhagavad Gita faz parte de outra obra muito mais antiga, o Mahabarata, que contém a doutrina dos Vedas. Sua idade é de aproximadamente 2500 anos (foi escrito por volta do Sec. IV a. C) e narra um diálogo entre o príncipe Arjuna e o Senhor Krishna, que se apresenta como uma personificação da divindade. Embora o início do texto apresente uma cena de uma batalha, ao longo da narrativa fica claro que o "chamamento" para a guerra que Krishna faz a Arjuna é, de fato, uma experiência de esclarecimento espiritual, de uma luta contra os verdadeiros inimigos do homem que são internos. Essa luta deve ocorrer até que se verifique a libertação completa (moksha) do espírito do ciclo de reencarnações.

No que segue abaixo, os textos espíritas estão em azul e do Gita em verde.

Alguns versos notórios

Sobre o politeísmo

Alguns poderiam argumentar que o texto em análise se insere dentro de uma tradição nitidamente politeísta, o que dificultaria sua "interpretação" à luz de qualquer outra doutrina ou crença moderna que sustente a existência de um único Deus. De fato, o "Bhagavad Gita" fala em vários deuses, mas, Khrisna apresenta-se como a essência suprema que está acima de todos eles:
O Criador de todos os seres, o Comandante das criaturas, Deus dos deuses, o Senhor do Universo, Oh Supremo Purusa, mas apenas Vós sabeis quem sois. (Cap. 10, 15)
Arjuna disse: Oh Senhor, contemplo em vosso corpo todos os deuses, todas as diversas espécies de entidades viventes, todos os divinos sábios e serpentes, Shiva e Brahma sentados sobre a flor de Lótus. (Cap. 11, 15) 
Além disso, falanges de deuses entram em Vós, alguns com mãos unidas em temor relacionam vossos nomes e glórias. Multidões de Maharishis e Sidhas dizem "Que haja paz", exaltam a Vós por excelsos hinos. (Cap. 11, 21)
Isso demonstra que a ideia de um Deus único, que se apresenta inicialmente como "sustentando a todos e como causa final de tudo que existe", se contrapões a noção dos deuses, que seriam entidades inferiores a ele e por ele criadas.  Temos aqui o início de uma crença monoteísta implícita no "Bhagavad Gita".

Sobre a existência da alma, sua origem e reencarnação

Mesmo uma leitura breve das palavras atribuídas a Krishna mostra que, há 2500 atrás, já se sabia de muitos princípios e realidades da vida espiritual que permanecem absolutamente desconhecidos do homem moderno. Tomamos o texto como ele pode ser lido em algumas traduções consideradas autoritativas (1).
De fato nunca houve um tempo em que eu não fui, ou quando tu e esses príncipes não foram. Nem é verdade que, depois desta vida, iremos todos deixar de ser. Assim como infância, juventude e velhice são atributos dados à alma através de seu corpo, ainda assim, ela adquire um novo corpo. O sábio não se confunde sobre isso." (Cap. 2, 12-13)
Ambos são ignorantes, aquele que considera a alma como capaz de matar e o que acha que ela pode morrer, pois, em verdade, a alma nem mata nem está sujeita à morte. (Cap 2, 19)
Está claro que Khrisna estabelece aqui a existência da alma como independente do corpo e sobrevivente a ele. Portanto, a morte, como fim absoluto do ser não existe.  Entretanto, isso só pode acontecer se a alma (que entendemos como sendo o princípio inteligente) for independente da matéria. Mas qual é a origem do espírito? Para o "Livro dos Espíritos", a origem da alma é um mistério, quer dizer, sua origem ainda deve ser estabelecida, mas não se confunde com Deus pelo princípio (2):
78. Os Espíritos tiveram princípio, ou existem, como Deus, de toda a eternidade? 
Se não tivessem tido princípio, seriam iguais a Deus, quando, ao invés, são criação sua e se acham submetidos à sua vontade. Deus existe de toda a eternidade, é incontestável. Quanto, porém, ao modo pelo qual nos criou e em que momento o fez, nada sabemos. Podes dizer que não tivemos princípio, se quiseres com isso significar que, sendo eterno, Deus há de ter sempre criado ininterruptamente. Mas, quando e como cada um de nós foi feito, repito-te, nenhum o sabe: aí é que está o mistério.
Seguindo a tradição do monismo oriental, para o Bhagavad Gita, ela é incriada
A alma nunca nasceu, nem nunca morrerá; nem se torna nascida. Pois a alma é não nascida, eterna, permanente e primeva; ainda que o corpo pereça, ela não perecerá. (Cap 2, 20)
Armas não podem cortar nem queimar a alma, a água não pode molhá-la nem pode ser seca. Essa alma não pode ser cortada, queimada pelo fogo, nem dissolvida pela água ou seca pelo ar também; ela é eterna, a tudo permeia, é imóvel, constante e perene. A alma é imanifesta, incompreensível e sobre ela se diz ser imutável. Portanto, sabendo que é assim, não te aflijas. (Cap. 2, 23-25) 
Parte da revelação de Khrisna é estabelecer um processo que levaria a alma a se reintegrar à Divindade. Para tanto, a alma deve ter algo em comum com essa última. A questão da identificação da natureza do ser com a Divindade tem, porém, um grande problema: como pode Deus permanecer não afetado pelas (más) ações daqueles que participam de sua natureza? Trata-se de um problema de natureza teológica (a origem do mal) de difícil solução pelo monismo e que não aparece no Espiritismo.  De qualquer forma, é assim que o "Bhagvad Gita" descreve a relação de Deus com as ações humanas:
O Deus Onipresente não participa da virtude ou pecado de ninguém. O conhecimento está envolto pela ignorância, assim, esses seres constantemente tornam-se presas da ilusão. (Cap. 5, 15)
O princípio das vidas sucessivas está anunciado em vários versos e é quase que uma consequência da independência da alma da matéria: 
Assim como um homem se livra de vestes estragadas para vestir outras novas, assim também a alma corporificada livra-se de corpos velhos para entrar em outros novos. (Cap. 2-22)
Pois, assim como a morte é certa para o nascido, o renascimento é inevitável para o que morre. Não deves pois te afligires pelo inevitável. Arjuna, antes do nascimento, os seres não se manifestam aos sentidos humanos; na morte, eles retornam ao imanifesto novamente. Eles se manifestam apenas no intervalo entre um nascimento e a morte. Por que, então, te lamentares? (Cap. 2, 27-28) 
Poderíamos até traduzir "alma corporificada" por "espírito encarnado" no primeiro verso acima. Como se fala em "sentidos humanos", existe aberta a possibilidade de manifestação da alma após a morte? Certamente que fora desses sentidos, através dos "videntes" (Rishis), que são considerados os verdadeiros autores dos Vedas.

O que acontecem com os que morrem e não atingem a libertação?

Este é o estado da imensa maioria dos homens:
Dificilmente dentre milhares de homens apenas um consegue me perceber, e desses yoguis que conseguem, de novo, raramente um dentre eles devota-se exclusivamente a mim e me conhece em realidade. (Cap.7, 3)
Portanto, Arjuna questiona Khrisna sobre o que acontece aos que não atingem plenamente a libertação do ciclo de nascimentos, mas que mantem certa ligação com o Divino:
Aqueles que realizam ações por algum motivo de interesse como estabelecido nesses três Vedas e bebem do néctar da planta Soma, tendo assim se purificado do pecado adorando a mim com sacrifícios, buscam acesso ao céu; atingem a Mansão de Indra como resultado de suas ações virtuosas, e aproveitam das beneficências celestiais dos deuses no céu. (Cap. 9, 20) 
Tendo aproveitado algo nos mundos celestes extensos, eles retornam a esse mundo de mortais as custas de seus méritos anteriores exauridos. Assim, devotados ao ritual com motivos de interesse, recomendados pelos três Vedas como meio de atingir a felicidade dos céus, e buscando prazeres mundanos, eles repetidamente vem e vão (ascendem ao céu em virtude de seus méritos e retornam à Terra quando seus frutos foram gozados). (Cap. 9, 21)
A "Mansão de Indra" representaria o mundo espiritual, e a ideia de que os reinos celestiais são povoados de deuses está mais de acordo com a ideia de um espaço espiritual repleto de espíritos. Aqui nos deparamos com um problema que é o de justificar a existência do ser sem o corpo (que novo corpo é esse que sustentaria a vida celeste?). A morte não representa assim a fusão com o Onipresente, mas dá origem a uma existência paralela no mundo dos mortos. Diferentemente da ideia espírita moderna de progressão contínua por meio de reencarnações, a crença do "Bhagvad Gita" vê o ciclo de reencarnações como uma enfadonha repetição ou punição daqueles que não completamente se devotaram a Deus:
Aqueles que se dedicam aos deuses, vão ter com os deuses; aqueles que se aproximam dos manes, alcançam os manes; aqueles que adoram espíritos, vão ter com os espíritos e aquele que adora a mim, vem a mim apenas. Essa é a razão porque meu devoto não mais estará sujeito ao ciclo de nascimentos e mortes. (Cap. 9, 25)  
Esse processo está descrito para aqueles que cumprem os atos de devoção. Não há espaço aqui para discutir o que aconteceria as que não se enquadram a essa descrição do Cap. 9. De qualquer forma, no Espiritismo a alma não pode involuir e a ideia da reencarnação implica em progresso contínuo, muito embora o espírito possa estacionar.

Conhecimento, ação. Sacrifício para a Salvação.

Entretanto, esse processo de libertação não é fácil. Assim, considerável parte do texto é gasto estabelecendo o princípio da Yoga (que se apresenta como um caminho ou processo de "purificação" pelos discípulos, que são os yoguis) que levaria à libertação da alma e sua reintegração com Deus.

Pode-se talvez dizer que a ideia da salvação - que adquiriu interpretação rígida em algumas doutrinas cristãs mais tardias - tem um paralelo na busca pelos orientais antigos pela libertação do ciclo de reencarnações. Uma vez estabelecida a realidade das vidas sucessivas, não seria essa libertação a nova busca do homem verdadeiramente esclarecido de sua vida espiritual?

Em certos trechos, Khrisna estabelece uma dicotomia entre o conhecimento e a ação, que guarda também outro paralelo na controvérsia cristã entre a "fé" (conhecimento) e as "obras" (a ação):
O Homem não adquire liberdade de agir (culminação da disciplina da ação) deixando de se engajar na ação; nem atinge ele a perfeição (culminação da disciplina do conhecimento) meramente por deixar de agir. Certamente, ninguém pode permanecer inativo mesmo por alguns instantes; pois, todos são levados agir pelos modos de Prakrti (qualidades adquiridas pelo nascimento). (Cap. 3, 4)
O homem só se torna limitado por suas ações quando ele não age com sacrifício. Portanto, Arjuna, vá e cumpra eficientemente o teu dever designado, livre de apego, por sacrifício apenas. (Cap. 3, 9)  
Arjuna, o ignorante age com apego, o sábio deve, para manter a ordem no mundo, agir de outra forma, sem apego. Um sábio estabelecido em si mesmo não deve desviar a mente do ignorante concentrado em agir, mas deve levá-lo a cumprir todas os seus deveres, realizando devidamente o seu próprio dever. (Cap. 3, 24-25)
Arjuna, quando atingires a iluminação, a ignorância não mais poderá te iludir. Na luz do conhecimento, tu verás a criação primeiramente em ti mesmo, e então em mim. (Cap. 4, 35)
O que estabelece o princípio do ensino pelo exemplo, pela ação e não por meras palavras. A evolução do espírito requer sua atividade no mundo, pelo que simples fé ou conhecimento não bastam (ver o Cap. 25 de "O Evangelho Segundo o Espiritismo, em "Fora da verdade não há salvação"). O agir "sem interesse no mundo", encontra certo eco, por exemplo, na mensagem "O Homem no Mundo" (3):
Não penseis, porém, que aos vos exortar incessantemente à prece e à evocação mental, queiramos levar-vos a viver uma vida mística, que vos mantenha fora das leis da sociedade em que estais condenados a viver. Não. Vivei com os homens do vosso tempo, como devem viver os homens; sacrificai-vos às necessidades, e até mesmo às frivolidades de cada dia, mas fazei-o com um sentimento de pureza que as possa santificar.
O que consistiria o ato de sacrifício moderno para aquele que sabe dessas verdades?
A virtude não consiste numa aparência severa e lúgubre, ou em repelir os prazeres que a condição humana permite. Basta referir todos os vossos atos ao Criador, que vos deu a vida. Basta, ao começar ou acabar uma tarefa, que eleveis o pensamento ao Criador, pedindo-lhe, num impulso da alma, a sua proteção para executá-la ou a sua benção para a obra acabada. Ao fazer qualquer coisa, voltai vosso pensamento à fonte suprema; nada façais sem que a lembrança de Deus venta purificar e santificar os vossos atos. (3)
e, segundo o Bhagavad Gita:
Arjuna, o que quer que fizeres, comeres ou concederes como oblação ao fogo sagrado, o que quer que ofertares como presente, ou meio de penitência, oferece-os todos a mim. (Cap. 9, 27)
Aquele que age oferecendo todos ações a Deus e libertando-se do apego, permanece intocado pelo pecado, tal como a folha de Lótus pela água. (Cap. 5, 10)
entendendo "Brahma" aqui por Deus, o Criador de todas as coisas. Entre conhecimento e ação, qual dos dois caminhos (Yoga) seria superior para se atingir a libertação?
A Yoga do conhecimento (Sankhyayoga) e a Yoga da ação (Karmayoga) ambas levam a suprema felicidade. Das duas, entretanto, a Yoga da ação, sendo mais fácil, é superior à Yoga do conhecimento. (Cap. 5, 2)
Para comparação, interpretando o adiantamento moral do espírito como resultado de suas obras, lembramos deste texto de Emmanuel (grifos nossos)
O sentimento e a sabedoria são as duas asas com que a alma se elevará para a perfeição infinita. No círculo acanhado do orbe terrestre, ambos são classificados como adiantamento moral e adiantamento intelectual, mas, como estamos examinando os valores propriamente do mundo, em particular, devemos reconhecer que ambos são imprescindíveis ao progresso, sendo justo, porém, considerar a superioridade do primeiro sobre o segundo, porquanto a parte intelectual sem a moral pode oferecer numerosas perspectivas de queda, na repetição das experiências, enquanto que o avanço moral jamais será excessivo, representando o núcleo mais importante das energias evolutivas. (4)
Outros versos

Já na época do Bhagavad Gita existiam os que comercializavam a religião. Portanto, não deixou Khrisna de condenar suas práticas:
Arjuna, aqueles que estão cheios de desejos mundanos e se voltam para os textos dos Vedas, que olham para o céu como seu supremo objetivo e argumentam que nada há além do céu, esses não são sábios. Proferem palavras cheias de ornamentos e recomendam rituais de vários tipos para conseguirem prazer e poder no renascimento com seus frutos. Aqueles cujas mentes são levadas por tais palavras e que estão profundamente agarrados a prazeres e poderes mundanos, não podem atingir intelecto concentrado em Deus. (Cap. 2, 42-44)
Certos dogmas cristãos, que preveem a remissão automática dos pecados parecem ter sido influenciados de alguma forma pela ideia da aceitação, fusão, união com a Divindade:
Aquele que me conhece em realidade como sem nascimento e sem começo, como o supremo Senhor do Universo, ele, sem ilusão entre os homens, é expurgado de todos os pecados. (Cap 10, 3) 
Direcionando todos seus deveres a mim, o todo poderoso e benemerente Senhor, busque refúgio em mim somente, e eu absorverei todos os seus pecados, não te aflijas. (Cap 18, 66) 
Mesmo o pior dos pecadores que se decidiu por me adorar com devoção exclusiva, ele será considerado um santo, pois ele escolheu corretamente. (Cap. 9, 30)
Entretanto, pode-se considerar tais versos de forma alegórica e não absoluta, já que o processo de moksha é considerado bastante difícil.

Conclusões


Creio não ser possível estabelecer uma correlação exata entre o conhecimento espírita moderno e doutrinas orientalistas que consideram abertamente a questão da reencarnação. Os textos antigos (o que inclui obviamente o Novo e o Velho Testamentos), por mais mas se esforce na interpretação, tornaram-se herméticos porque as pessoas e personagens que os escreveram não estão mais aqui para justificar e esclarecer o contexto e a intenção de certas passagens. Recebemos apenas ecos desse passado, que acabam sendo interpretados conforme o conhecimento histórico presente ou gostos e tendências pessoais ou de doutrinas com intenções diferentes, embora bastante nobres. 

Com algum esforço interpretativo podemos ver que a ideia da fusão com o Divino, de que parte do natureza do espírito deve fazer parte de Deus (desde o princípio), parece integrar a crença do Bhagavad Gita, e se distingue do dualismo característico no Espiritismo. Entretanto, acreditamos que essas questões são menores frente a beleza e eloquência desse texto antigo. Acreditamos também que os chamados "deuses" de que fala esse texto refere-se a consciência da existência dos espíritos como forças da Natureza. 

Tal como no efeito pedagógico obtido no "Livro dos Espíritos" por meio de perguntas e respostas, o discurso entre Arjuna e Khrisna se dá como uma série de questões feitas pelo primeiro, que são respondidas pelo segundo. Temos aqui em tempos remotos, o homem a indagar o poder superior sobre sua natureza, destino e meio de libertação, que não deixa de ser outro ponto de comparação.

Referências

(1) "The Bhagavadgita or the Song Divine - With Sanskrit text and English translation". Gita Press, Gorakhpur. As citações são todas traduções do texto em inglês. Outra versão que apresenta os versos em audio é http://www.bhagavad-gita.org/. Uma versão em português é "A Canção do Venerável" por  Carlos Alberto Fonseca, Ed. Globo (2009). ISBN: 978-85-250-4676-5
(2) "O Livro dos Espíritos". Versão do IPEAK: www.ipeak.com.br
(3) "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Cap. 17, "Sede perfeitos": "O Homem no Mundo".
(4) F. C. Xavier (2009). "O Consolador", questão 204. Ed. FEB.


1 de fevereiro de 2017

13 Encontro Nacional da Liga dos Pesquisadores de Espiritismo


Tema central: Prece e Curas Espirituais
26 e 27 de agosto de 2017
São Paulo-SP

Chamada de trabalhos

O Encontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo (ENLIHPE) é um espaço privilegiado no contexto brasileiro para apresentação e discussão de propostas e trabalhos de investigação científica sobre a temática espírita. O sucesso alcançado nos anos anteriores tem atraído pesquisadores de todo o Brasil, interessados na divulgação e discussão de seus estudos.

Um dos diferenciais do ENLIHPE é o seu formato, o qual incentiva a formação de redes de pesquisa e promove a aproximação de estudiosos de diferentes áreas do conhecimento.

A data final para submissão de trabalhos é 30 de abril de 2017. A confirmação do recebimento e o parecer da Comissão Científica sobre o artigo serão enviados eletronicamente ao email do remetente.

A avaliação será feita utilizando-se o sistema Double Blind Review, no qual o trabalho é avaliado anonimamente por 2 por membros da Comissão Científica do encontro.

Os trabalhos podem ser submetidos em qualquer área do conhecimento, desde que relacionado à temática espírita, em forma de artigo científico, conforme procedimentos definidos a seguir: 

Artigo científico
O artigo deverá ser gravado em 2 arquivos:

  • ARQUIVO 1 – contendo o nome do(s) autor(es), o título do trabalho e o resumo;
  • ARQUIVO 2 – contendo o título e o texto integral do artigo sem qualquer identificação de autoria.

Submissões de trabalhos

a) Acesse a página oficial da LIHPE em www.lihpe.net
b) Clique no link “13º Enlihpe – São Paulo/SP – Chamada para os trabalhos”
c) Clique no link para submissão e preencha os campos necessários.

Formato do Trabalho

Editor de textos: Word for Windows 6.0 ou Posterior
Número máximo de páginas: 15 (quinze)
Configuração das páginas
Margens: superior 3cm; inferior 2 cm; esquerda 3cm; direita 2 cm.
Tamanho do papel: A4 (largura 21 cm; altura 29,7 cm)
Fonte: Times New Roman, tamanho 12
Formato do parágrafo: Recuo especial: primeira linha 1,25 cm
Espaçamento entre linhas: simples.
Figuras, tabelas e gráficos: Fonte Times New Roman, tamanho 8 a 12
Resumo: Mínimo de 1150 caracteres (aproximadamente 10 linhas), máximo de 1750 caracteres (aproximadamente 15 linhas)

Revisão ortográfica a cargo dos autores

Informações adicionais: Acesse www.lihpe.net ou envie uma mensagem para contato@lihpe.net

Local do evento: União das Sociedades Espíritas do Estado de S.Paulo – USE-SP. Rua Dr. Gabriel Piza, 433, S.Paulo/SP